domingo, 29 de junho de 2025

Da escola para a vida: um caso de proporcionalidade direta (ou não)

 Eu sei que parece estranho para muita gente, mas há crianças e adolescentes que têm objetivos académicos, sem qualquer ligação a futuros objetivos profissionais. Há quem queira apenas ser um excelente aluno porque adora desafiar-se cognitivamente, porque adora aprender, porque adora evoluir intelectualmente. Só isso. Sem qualquer plano de grandeza para querer liderar ou por se considerar melhor ou superior aos outros.

Para se ser um aluno de excelência é preciso ser diferente da maioria dos alunos, isso é certo. Precisa de se ter, entre outras características, uma grande capacidade de trabalho e de organização,  muita paciência, resiliência e persistência. E claro capacidades cognitivas acima da média. E essas características serão, em princípio, levadas  mais tarde para o mundo do trabalho (ou não). 

É que, para além disso, há muitas variáveis.  Uma delas é a ambição, que pode ser  de vários tipos e pode surgir ou não em diversos momentos ou fases da vida.

 E nem todos desejam a mesma coisa da vida, na mesma altura.

 Já vi muitos alunos de excelência cuja ambição é, mais tarde, uma vida simples, em que tentam equilibrar a vida familiar e a vida profissional, por exemplo; já vi alunos medianos, com enormes capacidades - cognitivas ou não - subaproveitadas, e que mais tarde fazem de tudo para ascender numa empresa ou numa organização,  sendo ou não líderes natos, tendo ou não grandes hábitos e métodos de trabalho; já vi alunos de excelência desistirem de tudo; já vi alunos normais e até medíocres com um enorme potencial que só acionam ou só aproveitam mais tarde, quando atingem um determinado nível de maturidade.

Há de tudo.

Acho, contudo, que não se pode cair no erro de considerar que a excelência académica deve ser desvalorizada.

 Para mim,  é claro que a excelência académica tem de ser valorizada e muito! Alunos excelentes são exemplos, são forças motrizes dentro de uma sala de aula, são modelos de inspiração, que desafiam diariamente os professores e motivam os  colegas. São eles que melhor questionam, refletem, argumentam, com fundamento, com conhecimento,  com vontade... são eles que cumprem mais, que trabalham mais, que se esforçam mais. Isso tem que ser dito. E também deve ser dito que há muitos alunos medianos que só não são melhores porque não querem, porque dá muito trabalho. E está tudo bem, têm direito  a isso!

Em todo o caso, como todos sabemos, os bons resultados escolares interessam,  sobretudo para aceder a alguns cursos...

Mas depois, alguns anos mais tarde, já "com o canudo na mão" vem a vida a sério,  a procura de um emprego, a entrada no mercado laboral...

E claro que a excelência académica não dita inequivocamente o que vai acontecer nessa fase, quando se entra no mundo do trabalho. 

Mais tarde, no mundo laboral, serão acionados outros tipos de características. Também há resiliência,  persistência, motivação, mas são de outro tipo... e claro, a AMBIÇÃO,  que para muitos (não todos) passa a ser financeira!

 E todas essas novas vertentes das mesmas características, dos mesmos valores, podem dececionar alguns e estimular outros! E de repente tudo pode mudar: e o mediano pode ser excelente e o excelente mediano. Ou não! 

 Mas ainda bem que assim é! Isso significa que cada dia é uma nova oportunidade para cada um, independentemente das suas capacidades cognitivas, do modo como encarou a escola ou da dedicação e investimento  dispendidos durante a sua formação académica.

É muito interessante ver como tudo isso acontece e como os nossos alunos medianos ou medíocres mudam, e muitas vezes para melhor, quando entram no mundo do trabalho. 

Quanto aos alunos excelentes, muitas vezes deixam de querer "destacar-se" no mundo laboral. Não ambicionam chefiar, liderar, coordenar... Não querem "ir a jogo", não se reveem naquele tipo de papel, não têm o perfil necessário...  E então?  Qual é o problema?

Independentemente disso, nada lhes tira o mérito que tiveram ou têm e,  com certeza, os resultados escolares foram importantes para se realizarem pessoalmente, para terem mais conhecimento,  para serem mais cultos... para abrirem algumas portas, para acederem a alguns cursos ou profissões.

O resto vem ou não depois.

 Se vier, se quiserem, se lhes apetecer,  se forem capazes...

No fundo, no fundo, cada um de nós tem fases, como a lua. 

E, cá por baixo, na Terra, da passagem da escola para a vida, nem sempre é um caso de proporcionalidade direta. 

Mas é um gosto andar por cá e ver todas estas variáveis! 


 




sexta-feira, 13 de junho de 2025

É raro partilhar estas coisas, mas acho que estava a precisar!

 A simpatia dos meus alunos do 8°B ficou "lado a lado" com a frase de Descartes ("Penso, logo existo").

Uma das razões foi a de que, nos tempos modernos, a adaptação irónica de Descartes, na versão "Penso, logo INSISTO", tem-me dado com frequência coragem para enfrentar os grandes desafios e as enormes canseiras daquilo que é ser professor atualmente.  

Agora, com este meu novo miminho ❤️, lembrar-me-ei mais frequentemente das enormíssima alegrias que a profissão me traz. 

É que o meu escritório é muito mais do que um local de trabalho. Ele ajuda-me a recuperar energias e a não perder a esperança na sociedade que estamos a criar todos os dias. 

 Afinal, apesar de tudo, a dedicação compensa mesmo! 

P.S.: e não esquecer que, de vez em quando, é preciso dar um bocadinho de "música" ao pessoal (atenção ao pormenor da harmónica)🤣.

Há miúdos que são mesmo especiais!

Obrigada, 8°B



. ❤️

sábado, 7 de junho de 2025

Defeito de profissão: repetir o conteúdo, explicitando melhor alguns aspetos, para ajudar a perceber melhor a matéria.


Como já disse inúmeras vezes, ser professora é das missões mais difíceis que há.  Ninguém tem noção da verdadeira responsabilidade que é ter que tomar decisões a cada segundo: o que fazer? O que não fazer? como o fazer? Será melhor assim?

Sobretudo nos últimos anos, alguns desafios antigos tornaram-se ainda maiores: como criar um espaço de aula seguro, em que cada um dos alunos sinta que ali nenhum colega lhe vai fazer mal ou mandar bocas ou chamar nomes ou roubar material ou rir-se quando participar (seja porque acertou, ou porque falhou, ou porque pareceu interessado - o que é quase crime para alguns dos alunos que se "estão a lixar para tudo"...).

- Abre o caderno...escreve... faz como os teus colegas... sossega... olha a linguagem...  larga o TMV... pára...  O que é que tens hoje? Precisas de sair um bocadinho?

E entretanto já houve 31 pausas na aula... e os outros alunos à espera, uns curiosos, a ver quem ganha: o professor ou o aluno?; outros saturados desta falta de sossego; outros desertos para poderem fazer o mesmo,  caso o professor perca aquele "braço de ferro" (por inércia,  cansaço,  incapacidade ou desistência). Que canseira!

 Às vezes passa-me pela cabeça: e se os deixasse fazer o que quisessem? Mas logo recupero desse mau (bom?) pensamento: e volto à tentativa sistemática de ensinar (que teimosa, dirão alguns!)


Mas o cansaço começa a vencer e a verdade é que sinto que é tudo cada vez mais difícil, que é urgente fazer alguma coisa de diferente e que, provavelmente, teremos mesmo que "arrepiar caminho" e voltar a tomar decisões antigas, em que havia clareza na distinção entre o que era correto e aceitável  e o que tinha que ser punido de forma explícita, por ser claramente inaceitável. 

E nessas horas introspectivas, que me têm ocupado os tempos de insónia, lembro-me que até podemos não conseguir encaminhar ou recuperar dois ou três por turma, mas temos obrigação de mostrar aos restantes alunos que a escola é um lugar de crescimento, desenvolvimento, de valorização do saber e de alegria (diferente de euforia, já agora). 

Precisamos de fazer com que os nossos alunos se sintam seguros dentro da nossa sala: o que fazemos é sério, honesto,  bem intencionado,  do princípio ao fim! 

Temos que tornar os nossos alunos confiantes, respeitadores do trabalho e orgulhosos da possibilidade de crescerem cognitiva e intelectualmente! 

Para isso acontecer, também temos que os fazer sentir que não são reféns de um ambiente dominado pelo bullying - de todos os tipos e mais algum -  do qual não podem falar, com medo de vingança ("Depois é pior, professora."). 


É triste ver muito alunos pelos cantos, silenciosos,  amorfos, porque uma minoria "que não quer saber de nada" controla e domina o ambiente (até dentro da sala, se lhes for permitido).

Como é que é possível acharem que podem estar sempre a interromper, desafiar,  provocar, boicotar?


É sobretudo  isso que me tem preocupado mais ao longo dos últimos anos: o impacto que a indisciplina de dois ou três alunos por turma, a sua falta de trabalho, o desrespeito pela escola têm em muitos dos outros. E a ironia de ver como tudo isto está a ser apoiado, alimentado e protegido por um certo tipo de  impunidade  "legislativa",  Decretos-Lei, Circulares  e Normativos lindíssimos,  onde até se veem unicórnios nas entrelinhas.   

Eu, que sou professora há 32 anos (nos textos argumentativos isto é considerado um argumento de autoridade!), tive há alguns anos muitos alunos que, apesar das suas dificuldades, ainda olhavam para a escola com respeito, iam para casa e estudavam nem que fosse só qualquer coisita, havendo apenas uma minoria que não o fazia.

Agora, começou a acontecer algo bem mais complexo e perverso,  com um impacto muito maior do que se possa imaginar: por causa de um, dois ou três verdadeiramente indisciplinados, perturbadores, incumpridores - mas aos quais não acontece nada ou pouco mais que nada em termos de consequências -  muitos outros há que deixaram de olhar para a escola com respeito, alegria e dedicação.  Parecem sonâmbulos e acham mesmo que estão ali apenas a passar tempo, até chegarem a doutores ou engenheiro (no mínimo!). E alguns chegarão! 


Mas "voltando à vaca fria",

um número crescente de alunos está a começar a olhar para a escola como um "passatempo" (no sentido literal): fingem que ouvem, fingem que estão na sala, fingem que estão a resolver os exercícios.  Passamos pelas carteiras e nem a letra se consegue ler (se é que escreveram alguma coisa, nalguns casos). E,  claro, não estudam. 

E eu estou convencida de que está tudo relacionado:

 Se "àqueles tais" acontece pouco ou nada... e continuam, com ar cada vez mais seguro e desafiante, para quê fazer diferente,  se vai dar ao mesmo?- pensam muitos dos outros.

 "Para quê estudar, se até o fulano e o sicrano que fizeram isto, aquilo e mais mil e quinhentas coisas todos os dias, passam sempre de ano?" - dizem-nos alguns alunos olhos nos olhos.

 

É claro que há alunos fantásticos, bem formados, que olham para a escola como um caminho a percorrer com empenho e dedicação, mas fazem-no de forma cada vez mais discreta, de preferência sem comentarem as notas que tiveram ou os objetivos a que se propõem. Não convém arriscar. Ainda acabam a pôr-se a jeito de ouvirem umas bocas ou de serem gozados pelos "ditos que tais"!

E é triste! É mesmo muito triste quando quem quer aprender tem que fingir que não é nada disso, que é só para a "stora" não chatear, que a escola é só um circo, que não lhe interessa ter boas notas nem aprender. Caso contrário,  arrisca-se a ser gozado por alguns (mais do que dois ou três!), a andar com o nome a ser achincalhado presencialmente e, agora, ainda de forma mais perversa, nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, num tipo de cyberbullying indescritível, cruel, maledicente e patológico. Sinto vergonha alheia por muito do que acontece atualmente nas escolas nesta matéria. E sinto-me quase sempre impotente. E sinto que, neste assunto em particular, a escola tem que poder fazer algo! Concreto, objetivo e,  quem sabe, comece tudo a melhorar.

 Quem sabe? Sem telemóveis sempre na mão, poderia recuperar-se a qualidade das atividades interpessoais, talvez se voltasse a desenvolver a vontade de jogar, de conversar...e até de estudar! 

Quem sabe, reduzia-se o cyberbullying!

Quem sabe? Se os alunos deixassem de pensar que passam sempre de ano (e a escola e os professores também,  já agora), muitos desses mesmos alunos talvez recuperassem alguma paz e sossego mental e ganhassem gosto pela aprendizagem e orgulho na capacidade de pensar.


Claro que os detratores  deste tipo de análise poderão falar da omissão ou demissão de alguns pais (também sou mãe de três); do facto de haver conteúdos que "não interessam nem ao menino Jesus";  dos professores, esses marotos  com uma vida de luxo, uns que "são tão bonzinhos", outros que "são do piorio"! Poderão falar dos TMV, uma das maiores pandemias no que às relações interpessoais diz respeito, mas que tanta falta fazem para os nossos meninos  irem à IA copiar diretamente os poucos trabalhos que fingem fazer e jogar aqueles jogos fantásticos que mantêm os nossos filhotes caladitos, nos finais dos nossos dias cansativos; poderiam falar dos coitadinhos dos meninos todos cheios de problemas (bem sei, muitos de nós também os vivemos na infância e não só); poderiam até acrescentar mais um conjunto bastante significativo e pertinente de argumentos... todos eles válidos, em princípio!


Mas uma coisa é certa, isto vai de mal a pior: antigamente, dois ou três alunos desrespeitavam a escola e os professores; agora três ou quatro alunos "vão a jogo" e tentam dar o seu melhor (mas cuidado: convém não darem muito nas vistas, para não serem achincalhados pelos outros ou rotulados de "palermas"). 


 Não metam mão na escola e na indisciplina, que vão ver onde vamos parar!


Em todo o caso,  como assim é mais barato, não sei se acredito na boa vontade de mudanças sérias. Ainda por cima, pelos vistos,  a maioria dos filhos dos decisores políticos nem sequer frequentam a escola pública! Que curiosa coincidência!


 Entretanto, não se esqueçam que o "responsável da obra" somos nós, professores, não é só o engenheiro-político que fez os projetos e vem mandar uns "bitaites" de vez em quando. 


Está nas nossas mãos não desistir de ensinar, de disciplinar e de contribuir para uma sociedade que volte a valorizar o trabalho e a penalizar a inércia e a indisciplina, sob pena de esta espiral descendente não ter fim.


E quem sabe nós, professores, e nós, pais, poderemos sentir-nos novamente mais confiantes e mais descansados, porque é esse o caminho: ter objetivos, percorrer o caminho e concretizar os sonhos com orgulho no percurso e naquilo em que cada um dos nossos jovens se pode e se deve tornar.

Como dizia o poeta:

"Chegamos? Não chegamos?

Partimos. Vamos. Somos."

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Dedicada, mas nem sempre delicada: uma questão de disciplina e acerca da indisciplina

 Dedicada, mas nem sempre delicada. (Private joke, apesar de o assunto ser bem sério)


Começo por dizer que ser professora é das missões mais difíceis que há.  Ninguém tem noção da verdadeira responsabilidade que é ter que tomar decisões a cada segundo: o que fazer? como o fazer? 

E, sobretudo nos últimos anos, como criar um espaço de aula seguro, em que cada um dos alunos sinta que ali nenhum colega lhe vai fazer mal ou mandar bocas ou chamar nomes ou roubar material ou rir-se quando participar (seja porque acertou, ou porque falhou, ou porque pareceu interessado, o que é quase crime para alguns dos alunos que se "estão a lixar para tudo"...). Abre o caderno, escreve, faz como os teus colegas, sossega, larga o TMV, pára...  O que é que tens hoje? Precisas de sair um bocadinho?

E entretanto já houve 30 pausas na aula...que canseira!

 Ou deixo passar e "que se lixe"?


É urgente fazer alguma coisa.

Podemos não conseguir encaminhar ou recuperar dois ou três por turma, mas temos obrigação de mostrar aos restantes alunos que a escola é um lugar de crescimento, desenvolvimento, de valorização do saber e de alegria (diferente de euforia, já agora). 

Precisamos de os fazer sentir seguros dentro da nossa sala: o que fazemos é sério, honesto,  bem Intencionado,  do princípio ao fim! 

Temos que fazer sentir os nossos alunos confiantes! 

Temos que os fazer sentir que não são reféns de um ambiente dominado pelo bullying (de todos os tipos e mais algum), do qual não podem falar, com medo de vingança ("depois é pior, professora"). 


É triste ver muito alunos pelos cantos, silenciosos,  amorfos, porque uma minoria "que não quer saber de nada" controla e domina o ambiente (até dentro da sala, se lhes for permitido).

Como é que é possível acharem que podem estar sempre a interromper, desafiar,  provocar?


É  isso  que me tem preocupado mais ao longo dos últimos anos. Mas é sobretudo  o impacto que a indisciplina e que um certo tipo de  impunidade  'legislada' tem em muitos dos outros alunos.

 Esse impacto é, na realidade, muito maior do que se possa imaginar: por causa de um, dois ou três,  outros há que deixaram de olhar para a escola com respeito, alegria e dedicação.  Parecem sonâmbulos e acham mesmo que estão ali apenas a passar tempo, até chegarem a doutores ou engenheiros (de preferência,  claro está). E alguns chegarão! 


Mas voltando à vaca fria,

um número crescente de alunos está a começar a olhar para a escola como um "passatempo" (no sentido literal): fingem que ouvem, fingem que estão na sala, fingem que estão a resolver os exercícios.  Passamos pelas carteiras e nem a letra se consegue ler (se é que escreveram alguma coisa, nalguns casos). E,  claro, não estudam. 

E eu estou convencida de que está tudo relacionado:

 Se "àqueles tais" acontece pouco ou nada... e continuam, com ar cada vez mais seguro e desafiante...  

Para quê fazer diferente,  se vai dar ao mesmo, pensam muitos?

 Para quê estudar, se até o fulano e o sicrano que fizeram isto, aquilo e mais mil e quinhentas coisas todos os dias, passam sempre de ano? Dizem-nos alguns alunos na cara.

 

É claro que ainda há alunos que olham para a escola como um caminho a percorrer com empenho e dedicação, mas fazem-no de forma cada vez mais discreta, de preferência sem comentarem as notas que tiveram ou os objetivos a que se propõem. Não convém porem-se a jeito de ouvirem umas bocas ou de serem gozados pelos ditos que tais!


Poderíamos falar da omissão ou demissão dos pais (também sou mãe de três); poderíamos falar do facto de haver conteúdos que "não interessam nem ao menino Jesus"; poderíamos falar dos professores, esses marotos  com uma vida de luxo, uns que "são tão bonzinhos", outros que "são do piorio"! Poderíamos falar dos TMV, uma das maiores pandemias no que às relações interpessoais diz respeito.


Claro que há muitas variáveis,  como na matemática. Mas, tal como na matemática, também há a proporcionalidade direta.


Não metam mão nisto, que vão ver onde vamos parar!


Mas como assim é mais barato, talvez os nossos políticos decidam esquecer a matemática. Pelo menos por enquanto. Entretanto, não se esqueçam que o "responsável da obra" somos nós, não é só o engenheiro que fez os projetos e vem mandar uns "bitaites" de vez em quando. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Tudo e nada

Haver tanto para escrever, mas nada de realmente importante para dizer deve ser a maior angústia de quem sabe que a escrita poderia ser a melhor terapia.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Latim e o Grego: dois grandes amores

Hoje, ao caminhar pelos velhos corredores da Faculdade de Letras, lembrei-me várias vezes de cenas antigas, escondidas no baú das memórias. Foi há vinte e tal anos, mas quem passou por lá, como eu, deve lembrar-se assim das coisas, como se tivesse sido ainda há uns meses, uns anitos talvez, na pior das hipóteses.
Era uma jovem estudante de Clássicos e lembro-me de sentir, já na altura,  que estudar Latim e Grego era um privilégio, um luxo que me era permitido a mim e a uns poucos como eu. Lembro-me com saudade de algumas aulas, de salas, dias, horas, momentos, cheiros, livros em velhas estantes, sebentas, apontamentos repletos de cumplicidades com a colega do lado, dicionários sublinhados a várias cores, traduções, retroversões, declinações e muitas, muitas outras confusões... Gostava daquilo! Estava a aprender, fazia-o com gosto, com vocação, e sentia-me afortunada por isso.
Hoje, acordei em mim mais uma vez a velha paixão que sempre senti pelo meu curso! Que sorte que tive: ia à maioria das aulas e gostava de ouvir aqueles professores, de decifrar aqueles textos, de estudar aquelas histórias. E que belos contadores de histórias tive o prazer de ouvir! Professores apaixonados pelo que faziam, que davam uma aula como quem contava uma história. Professores cuja ausência era sentida quando davam um furo. Espantoso!
Hoje - já o perceberam - matei saudades dos Clássicos novamente, em Coimbra, nos velhos corredores e salas de outros tempos. Revisitei outros locais, ouvi velhas histórias, li em Latim, cantei , ri-me muito... e deixei-me levar para outros tempos, muito antigos, como se de um passe de magia se tratasse.
Tudo porque um grupo de apaixonados pelos Clássicos decidiu organizar os "Ludi Conimbrigenses", tudo porque há quem acredite que aquilo que somos depende daquilo que fomos. Tudo porque há quem se recuse a acreditar que o Latim e o Grego morreram. Tudo porque há quem seja mesmo apaixonado pelo que faz.
 Isso é mesmo o mais importante (digo-o aqui também!) e disse-o já a alguns dos meus alunos. O mais importante é estarmos apaixonados pelo que fazemos, e hoje vimos dezenas de pessoas apaixonadas pela Área que escolheram, fosse ela o Ensino, o estudo dos Clássicos, o Teatro, a História, a Visita Guiada a um Museu...
E porque só temos uma vida, há que vivê-la assim, com paixão, foi-nos também lembrado, numa aula improvisada de Latim.
Quem me conhece sabe  que tenho muitas saudades de ensinar Latim e Grego, as minhas duas primeiras grandes paixões.
Ontem li um texto em que se falava da sua morte; hoje vi estas duas línguas e culturas vivas, bem vivas, e cheias de alegria. Ontem senti-me triste, por momentos; hoje tenho esperança de que, com o tempo, não se apaguem as memórias do tempo. Afinal, tal não seria possível.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sentir palavras

Sinto uma dor dentro do peito, um aperto na garganta, falta de ar.
Sei que estou bem, que amanhã me sentirei melhor, que tudo passa, como sempre.
Mas sinto-o.
E sinto-me frágil, mostro-me assim.
Sou.

Pormenores, talvez,
Argumentos microscópicos, dirão.
Mas o turbilhão...
E a proa fustigada pelos ventos
Acusa cansaços antigos,
E, desolada,
Exige que o mar serene, e as ondas se acalmem, e o vento sossegue...

E o cansaço:
Talvez passe
O cansaço.

Gastar palavras
Ou então omiti-las, por momentos.

Horas que nos desgastam,
Treinando sorrisos cansados, tão tristes,

E esta dor dentro do peito, este aperto na garganta, esta falta de ar.
Talvez  já esteja bem, sei que amanhã me sentirei melhor,
Que tudo passará, como sempre.
Mas sinto-o.

E amanhã, talvez...
Talvez passe.

Amanhã, quem sabe!



terça-feira, 22 de abril de 2014

sala de aula



De volta da poesia,

Às voltas...

No início, parecem soltas as palavras.

Então, agarro-as na minha mão

e, com mil cautelas,

Mostro-as: "vejam, tão belas!"

Espantados, por vezes confusos,

Olham para elas.

Compreendem-nas?

Quem sabe...

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Um dia qualquer, entre o Natal e o Ano Novo


Podia dizer-se que era uma família comum, se comum era ter mesa cheia, casa quente, aconchego, paz, momentos de sintonia que poucas palavras conseguem descrever.
Era mais um final de tarde e estavam todos em casa, cada um nas suas coisas. As luzes da árvore de Natal piscavam, num ritmo calmo e sereno.
Eles estavam sentados nos velhos sofás, de frente para a lareira. Alguns com o computador sobre as pernas, vários separadores abertos, em alternância, intervalando o trabalho com as notícias do dia e os mails. Sinais dos tempos.
Entretanto, anoitecera e havia entre a sala e a cozinha uma indistinta amálgama de afazeres rotineiros e de ociosa descontração. A única televisão da casa estava ligada, quase sem som, como era habitual; alguns livros abertos, à espera, e folhas de apontamentos espalhadas pelas mesas. As pantufas nos pés, alguns pijamas já vestidos. Conversava-se pouco àquela hora, cada um no seu mundinho, aparentemente desligados uns dos outros: “A Pantera Cor de Rosa” no youtube; um livro que se lia; o saltitar entre o FB e a televisão; as idas à cozinha; alguém que punha lenha no lume.
Tinham começado a cozinhar mais cedo, porque iam ter visitas e sentia-se já pela casa um cheiro bom a assado no forno. Todos sabiam o que fazer: pôr a mesa, arranjar o cesto do pão, ir buscar mais cadeiras, abrir o vinho para respirar, preparar a tábua de queijos, temperar a salada. Eram tarefas básicas, centenas de vezes repetidas ao longo dos tempos, primeiro pelos pais, agora por todos, quase sem palavras, abrindo os mesmos armários e as mesmas gavetas de sempre. Era bom estar-se assim, naquela calma familiaridade, naquele sossego de poucas palavras, cumprindo rotinas, repetindo cenas já tantas vezes vividas…
Talvez haja quem não entenda o que tem de especial um final de tarde assim. Possivelmente era apenas a maneira como eles viviam alguns momentos da sua vida, como os valorizavam, como se agarravam a essas memórias para esquecer algumas das outras. Às vezes, eram apenas breves instantes, num mar de algumas tempestades.
E parecia tão simples, afinal. Talvez aquilo: uma família, comida na mesa, uma lareira a arder, um LAR.
Era um dia qualquer, entre o Natal e o Ano Novo. Uma família comum, ou talvez não.

 
Célia Lima

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Passeios, torres de Lego e outras heranças


Haviam almoçado cedo – em casa, claro – e não saíram sem antes ter enchido o porta-luvas do carro com garrafas de água e com os pacotes de biscoitos e de bolachas do costume.
Cumprira-se, pois, o prometido: um passeio em família! Não muito longe, evidentemente. Uma coisa simples e barata, de preferência a fugir às portagens e aos pórticos das modernas, múltiplas mas dispendiosas autoestradas da nação.
Com o almoço “no papo” e o lanche “no saco”, gasóleo no automóvel, lá foram e de lá voltaram, sempre de olho vivo, não fosse alguma brigada estar à espreita, escondida por trás de alguma sebe. Todos alerta, atentos a qualquer vulto camuflado sobretudo nas descidas, ou à saída de algum lugarejo. O risco era pequeno, pois o pai conduzia devagar, mas ultimamente eles andavam cegos, com os radares “afinadíssimos”, diziam alguns; escondidos à socapa, garantiam outros; com ordem para multar ao mínimo deslize, comentavam os próprios em conversas de café.
- A malta cai toda que nem tordos, portanto, nunca arriscando.- lembrou o chefe de família.
 E, pelo sim, pelo não, a mãe e as crianças, com olhar de lince, confirmavam velocidades e desfaziam dúvidas sobre eventuais carros à civil estrategicamente estacionados à beira das estradas, atrás de lombas, debaixo das passagens superiores, a meio das rotundas… Valia tudo, mesmo tudo!
- Olha ali, parece um radar!
 - Cuidado, pai, vais a 54 km/h e está um carro atrás daquele arbusto.
Falso alarme! Ainda bem.
Tinha sido uma tarde divertida, mas bastante cansativa: evitar as compras (shoppings, cafés, pastelarias, cinemas, roupas novas, sapatos, livros, “olha aquele jogo novo para a PS!”, “As minhas sapatilhas estão a começar a romper-se.”, “Posso comer um gelado?”…). Não fazer compras, evitar o cafezinho e o geladinho, controlar o consumo do automóvel – “já gastámos um quarto de depósito!”, “mais vinte e cinco euros para a corda do sino!”.
 Que canseira!
Olhos fixos na estrada, pensamentos ocultos, palavras que ficam por dizer, lamentos calados.
Mas é tudo tão bonito, tão moderno, tão “à frente”!
E autoestradas vazias, estádios às moscas, shoppings e restaurantes de luxo. Belas pousadas, fantásticos Museus. “Uma oferta cultural invejável!”, dizem-nos na televisão, e nós acreditamos. “Um destino turístico a repetir!”, confirmam os turistas com belos sorrisos, num inglês que nos esforçamos por decifrar!
 - Se eu vivesse num país desenvolvido, também vinha passar férias a Portugal, pai. E havia de conhecer bem o nosso país. – dissera uma vez um dos miúdos.
De repente, o silêncio é interrompido:
- Quando chegar a casa, vou fazer a maior torre de Legos do mundo, e não é preciso gastar dinheiro! - Disse com ar convincente a mais pequena - Que sorte que eu tenho por ter herdado os Legos dos manos. – Acrescentou.
Ninguém comentou. Ninguém disse nada. Os olhos cruzaram-se, mas apenas isso.
E a crise a teimar, nas notícias, à noite.
E a maior torre de Legos do mundo, em cima da mesinha da sala.
- Que bonito, filha!
Os Legos herdados dos irmãos. As dívidas herdadas, feitas não se sabe por quem.
Crianças sem culpa, famílias confusas. Dão ainda alguns passeios, às vezes.
Que lindo que é o nosso país!

Célia Lima, outubro de 2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Domingo de manhã


Mal abriu os olhos, viu a claridade da manhã que espreitava por entre duas ou três frestas da persiana mal fechada, anunciando mais um belo domingo soalheiro. Fechou novamente os olhos e deu conta do silêncio quase mágico que caracteriza as manhãs de domingo, aquele tipo de silêncio que nos agarra à cama mais um pouco, nos embala o corpo e a mente, nos fecha novamente os olhos e nos ordena que durmamos mais um pouco, só mais um pouco…
Foi nesse preciso momento que ouviu o leve rumor de um pequeno corpo a virar-se, não muito longe dali. Depois, o som de pés a tocarem o soalho de madeira, pequenos passos que se dirigiam para um destino.
Percebeu que o filho acabara de se levantar e, dependendo da hora, seguir-se-ia, invariavelmente, um de dois cenários: chegado à porta, viraria à direita e enfiar-se-ia sorrateiramente na cama dos pais, ou então, seguiria pela esquerda e, sem grandes barulhos, iria para a sala onde, sentado no melhor lugar do sofá, seria “rei e senhor” do comando e veria todos os desenhos animados que quisesse, fazendo zapping entre meia dúzia de canais da especialidade.
Não deve ser muito cedo, pensou a mãe, quando o sentiu afastar-se em direção à sala. Já sabia que era lá que ele se manteria durante uma boa parte da manhã, o tempo que demorasse a preguiça dos pais e o ritual dos arranjos e dos arrumos matinais.
Lembrou-se de quando era pequena e das manhãs de domingo sempre compridas e apressadas: o banho matinal, a roupa domingueira, a caminhada rumo à catequese ou à missa, as compras no mercado, o regresso a casa, a pé ou de bicicleta… e os desenhos animados a acabarem. Que grande azar! Seguia-se a TV Rural e, claro, esperar pela manhã do sábado seguinte, caso houvesse tempo, ou por uma qualquer manhã de domingo, se conseguisse despachar-se mais cedo da missa e do mercado.
Em tempos idos!
Tantas mudanças, pensou… tantas!
Ainda era cedo, demasiado cedo para pensar em coisas sérias. E era domingo de manhã! Fechou novamente os olhos e sentiu vontade de dormir mais um pouco, só mais um pouco…

Célia Lima, agosto de 2013

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A escola, um assunto muito sério!


Falar de escola parece ter-se tornado um assunto demasiado corriqueiro, com todos a dizerem o que dela pensam, mesmo que pouco ou nada saibam da mesma.
Muitas vezes, aquilo que se diz sobre a escola, consciente ou inconscientemente, pode abalar de forma inexorável a seriedade daquilo que ela sempre foi, é, e espero continue a ser: a segunda casa das crianças e dos jovens; a instituição responsável pela sua formação, onde passarão grande parte da sua vida, até finalmente estarem aptos a entrar no mercado de trabalho; o lugar onde aprenderão a diferença entre colegas e amigos; onde conhecerão dezenas de professores e de auxiliares que dedicam as suas vidas a ensinar e a educar, e que acreditam ser responsáveis pela formação de uma sociedade melhor, que tentam fazê-lo da melhor maneira que sabem e, sobretudo, da melhor maneira que lhes é possível. Esta é a realidade! Diminuir a importância da escola com discursos sobre inadaptação à realidade, ou com tentativas de desautorização do sistema educativo, sorrateiramente disfarçadas sob pretextos ligados aos desajustes do ensino, da aprendizagem e até da avaliação, passando pela crítica desenfreada a todo e qualquer professor que se sinta – que ousadia! - no direito de ensinar e de exigir é dizer a todos os jovens que a escola não interessa, que o “saber” não faz falta e que bom mesmo é não fazer nada. E isto, meus senhores, eu não aceito, nem como mãe, nem como professora, nem como ex-aluna.
 Andava eu à volta com estes e muitos outros pensamentos, quando decidi auscultar mais uma vez a minha filha mais nova, que entretanto entrará no primeiro ciclo. Foi uma conversa longa, uma recolha de frases dispersas, mas cheias de sentido, repleta de entusiasmo e de boas intenções, plena de sonhos. Foram palavras de uma criança que acredita na escola, que acredita que é importante aprender.
As suas palavras, que tentarei reproduzir com o máximo de rigor possível, são para mim um dos mais belos, inocentes e puros testemunhos de motivação para a escola que alguma vez ouvi.

 Ainda não ando na escola dos grandes, ando só na pré, mas estou muito entusiasmada com a entrada no primeiro ano, que vai ser já em setembro.
Já me disseste que, no verão, temos que preparar tudo para a escola: comprar livros, cadernos, canetas, lápis e muitas coisas mais. Ah, e uma mala nova, das grandes. É que, quando eu estiver na escola primária, não posso levar só a lancheira.
Estou um bocadinho preocupada, pois, se calhar, não vou poder levar brinquedos para a sala de aula, mas talvez possa brincar com eles no intervalo.
Lembras-te, no outro dia, quando me explicaste isto tudo, mãe? Naquele dia em que eu levei quatro peluches para a pré. “Ena, um braçado de peluches!”, disseste. Explicaste-me que esperavas bem que quando eu fosse para a primária não pensasse em levar o Winnie, a Pandora e os outros todos. Já pensei para mim mesma que posso sempre levar uns brinquedos mais pequenos, escondidos na mochila. As manas faziam isso, pois faziam?
Começo a andar muito animada com a ida para a primária. Na minha escola, a minha professora já começou a dizer: “Despachem-se, se não, não conseguem acabar os trabalhos!”. Eu acho que temos que ter tudo em ordem para ter boas notas no final deste ano. Eu e todos os meninos que vão para a primária andamos atarefadíssimos! Será que passamos todos de ano? Espero bem que sim! Eu cá tenho os desenhos todos prontinhos e faço as fichas todas. Penso que vou ter boas notas, mas não tenho bem a certeza. Espero bem que sim.
Tenho a certeza que na escola primária vou ter que trabalhar muito. Vou fazer muitas fichas e vou aprender muitas coisas: os números, as letras, as contas, ler, escrever…
Nos intervalos, vou para o recreio, correr, saltar e brincar com os meus amigos. Vamos para o baloiço e para o escorrega e brincamos sem parar!
 As manas disseram-me que, se calhar, vou ter uma professora de inglês e uma professora de educação física, no final da tarde. Estou muito curiosa para ver como é!
As manas, que andam na escola há muitos anos, disseram-me que é muito importante estudar muito e ser boa aluna. Só assim poderei conhecer melhor o mundo que me rodeia e poderei tornar-me autónoma. Gosto muito desta palavra: “autónoma”. Aprendi-a quando era mais pequena. Tem a ver com saber fazer as coisas sozinha. Acho que, sempre que somos um bocadinho autónomos, ficamos maiores. E eu quero ser grande, como as manas.
Estou deserta para começar a primária!

A conversa foi, como sempre, longa. Pelo meio, disse-lhe que sim, que a escola era muito importante e que tinha a certeza que ela ia ser uma boa aluna, mas que era importante estudar muito, ser obediente e ser uma menina muito atenta a tudo o que a rodeava. Riu-se com os olhos, como costuma fazer sempre que me quer agradar, e foi a correr para a rua, andar de bicicleta e apanhar caracóis.
Esta é uma das nossas crianças, uma criança como tantas outras, a falar da escola com grandes expectativas. Não a podemos dececionar.


Célia Lima, maio de 2013

 

terça-feira, 16 de abril de 2013

Primeiro Dia de Primavera


A net vaticinava bom tempo e a semana foi passando, mais animada do que era habitual, na expectativa de ver cumprida a promessa: no fim de semana iria haver sol!
O sábado chegou finalmente, cheio de uma luz bem-disposta, apropriada para ajudar a enxugar as almas tristonhas.
Como de costume, planearam coisas simples, coisas de família: ajeitar a casa, cortar a relva, ir beber café, fazer uma refeição calma em família … Ainda se falou na possibilidade de ir ao shopping, mas era melhor não, não convinha gastar dinheiro.
- Como hoje está bom tempo, que tal chamar o pessoal para um lanchinho? – sugeriu alguém.
- Boa ideia! – ouviu-se logo, em coro.
Fizeram-se uns telefonemas, mandaram-se recados e sms.
Finalmente, por volta das cinco, começaram a chegar os convidados. A tarde estava ótima, o ar exalava novos perfumes e, à medida que o dia ia avançando, tudo na natureza parecia mais vivo, mais cheio de cores e de sons.
- O que é que aconteceu? Temos festa? – perguntavam à medida que iam chegando.
- É para aproveitar melhor o primeiro dia de primavera!
Distribuíram-se cumprimentos, encetaram-se conversas descomprometidas, sinceras e informais. Depois, com naturalidade e sem pressas, os “comes e bebes” foram sendo ajeitados pelas mesas, na rua e dentro de casa, conforme a vontade e o apetite de cada um. Por cima de velhas toalhas coloridas e desbotadas, tremoços, pevides, queijos, pão, enchidos, bolachas e bolachinhas, carnes, vinhos, sumos, cervejas… tudo numa saudável mistura, à disposição de todos. Pratos, copos e talheres passavam de mão em mão, numa simplicidade antiga, descomprometida de formalismos e alheia a modernices e a regras de etiqueta supérfluas e cansativas. As cadeiras e os bancos diversos ajeitavam-se em semicírculos casuais, enquanto se ouviam as peripécias da semana ou se comentavam as brincadeiras das crianças.
E as crianças brincavam sem parar, correndo por entre as árvores, andando de bicicleta, levando e trazendo brinquedos, numa agitação própria de quem está feliz, de quem queria aproveitar cada minuto do dia e cada segundo que passava. Num afogadilho, passavam pelas mesas, agarravam à pressa algo para comer e saíam disparadas rumo a uma nova brincadeira.
Desprendida de cansativas convenções sociais, sem urbanidades extenuantes, sem falsas formalidades, a tarde ia passando e todos descansavam de mais uma semana, entre amigos, à-vontade, a aproveitar o bom tempo, a cultivar o que de melhor a vida oferece: saúde, família, amigos, sol.
Comeu-se e bebeu-se animadamente. Disseram-se tolices, repetiram-se velhas anedotas, recontaram-se histórias. Riu-se. Riu-se muito, como sempre. Também se tiveram conversas mais sérias, falou-se da crise, desabafaram-se contrariedades e repeliram-se medos e frustrações.
À medida que a tarde foi avançando, o sol despediu-se e foi-se também desfazendo a companhia, naturalmente, sem grandes despedidas, no ritmo simples, calmo e aconchegante de quem é praticamente da família.
Foi na primeira tarde de primavera. E já era abril! Acompanhados pelos amigos e pela família, celebraram o sol que chegara finalmente!


Célia Lima

sexta-feira, 22 de março de 2013

Disfarçar emoções ou nem por isso


 
Num destes dias, num final de manhã, decidi fazer uma boa ação: dar sangue.
Encaminhei-me para os gabinetes improvisados numas salas da escola, preenchi o folheto de inscrição - um questionário bastante rigoroso e invasivo da minha intimidade – e aguardei, algo nervosa, a chegada da minha vez.
Entretanto, em conversa com colegas, afugentava o meu “acobardamento crónico em coisas de saúde”, disfarçando o nervoso miudinho com brincadeiras e ironias tolas mas inofensivas. Quem me conhece sabia que estava receosa, que não lido bem com agulhas, mas pretendia ser valente, ser corajosa, ajudar, contribuir. Por isso, fui ficando, à espera da minha vez. E ela chegou, inevitavelmente.
Comecei por dirigir-me a uma das salas para uma breve consulta com uma médica que começou por me medir a tensão arterial e que, já com ar surpreendido, me auscultou a pulsação. Ambas estavam anormalmente altas. “É do nervoso miudinho.”, expliquei-lhe. “Mas parece tão calma, tem um ar tão sereno.”, retorquiu, olhando para mim com ar curioso. “É da profissão, sabe que o ar também conta!”, disse eu. “Ai conta, conta.”, reiterou ela, com ar divertido, mas assertivo.
Foi assim que chumbei nas minhas boas intenções de dar sangue. E saí dali, despedindo-me da simpática médica, sem poder dar sangue, mas com o tal aspeto seguro, calmo e firme de quem aprendeu a parecer sempre bem, a aparência serena e tranquila de quem finge trazer tudo controlado, de quem aparenta aguentar tudo o que vier.
Saí triste, confesso, e algo perturbada, embora pouco se notasse por fora. Sabia que o meu estado físico não tinha apenas a ver com o “nervoso miudinho” de ir dar sangue. Sabia que muitas vezes, em muitos dos dias, o tal ar “sereno e seguro” não passa disso mesmo e que por dentro há - sobretudo nos últimos tempos - um reboliço de emoções. Há desânimo, há uma luta diária por escapar aos tentáculos de uma espiral de pessimismo, por conseguir resistir a tantas incertezas, a tantas mudanças, a tantos sacrifícios. Mas o ar também conta, “Ai conta, conta!”. E ainda bem, Sra. Dra, ainda bem, é melhor do que nada.


Célia Lima, abril de 2013

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ser Mãe


Em pequena, ouvia as minhas avós contarem que “pariram” os filhos agarradas à trave da lareira e ficava a olhar para elas, incrédula e assustada. Era impossível! Como é que alguém se podia submeter a um tal esforço? De pé, agarradas à trave da lareira?!
Quando engravidei da minha primeira filha, dediquei algum tempo a pensar (e até a sonhar!) com o parto. Imaginava-o de mil maneiras, normalmente cheia de medo, confesso, mas sempre com o aconchego mental de que já não vivia no tempo das minhas avós. Sabia que iria ter a minha bebé com o máximo de assistência médica possível, reduzindo assim - imaginava eu - a probabilidade de sofrimento a que poderia estar sujeita em termos físicos.
O tempo foi passando, e eu evitava pensar muito no assunto, embora por dentro estivesse em pânico, “morta de medo”, sentindo muitas vezes que o meu corpo não seria capaz de dar passagem ao bebé, de o deixar nascer naturalmente.
Foi mais ou menos isso que aconteceu, de facto. Confirmei que era uma “má parideira” e que sozinha nunca colocaria nenhum filho no mundo, com ou sem trave de lareira, com ou sem a ajuda e a coragem transmitidas pelas mulheres antigas. Agradeci aos deuses ser destes tempos, ter hospitais, médicos, enfermeiras, anestesistas… Até agradeci à bruta da enfermeira que me apertou a barriga com toda a força. Sem ela, a minha filha não teria nascido. Sem toda a parafernália da saúde moderna, eu teria morrido, provavelmente caída sob a trave da lareira, depois de gritos surdos e prantos inúteis.
É pois meu propósito confessar publicamente a minha total e inquestionável incompetência como parturiente! Assumo-o diante de todos. E arranjo testemunhas variadas que o confirmam, para vergonha minha. Apesar disso, submeti-me três vezes à mesma experiência, cada vez mais traumatizada, cada vez mais dececionada com o meu desempenho na hora de ajudar as minhas filhas a nascerem. Mas nasceram, com muita ajuda, é certo, mas nasceram.
Passada a experiência de cada um dos partos – cada um mais traumático do que o anterior, diga-se em abono da verdade – era contudo automática a perceção de que tinha sido mais uma vez abençoada, verdadeiramente abençoada. Entrava no hospital sozinha, mas regressava a casa com mais um ser, mais uma filha, que se gerara no meu ventre, nele se tinha formado e dele saíra para o mundo. Sentia sempre o mesmo: nascia um novo ser, fruto do amor de duas pessoas, fonte de esperança, símbolo de felicidade!
Percebi em cada um desses dias o que significava “dar à luz”, senti-o com todos os músculos do meu corpo, em todos os poros do meu ser, senti-o na carne rasgada, que deixava logo de doer, como que por magia.
Estava sempre feliz, imensamente feliz. Sentia-me responsável, útil, importante. Era como se, a partir daquele momento, tudo no mundo tivesse mudado!
Ser mãe foi - e continua a ser ainda hoje - a experiência mais enriquecedora que me foi permitido ter na vida.

Célia Lima, Março de 2013

 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

E ao sétimo dia fez-se luz!


Num destes dias dei por mim a recordar  os sábados e domingos passados em casa dos meus avós, quando havia festas e a louça era lavada numa bacia com água quente da púcara, misturada com água fria do caneco; ou quando o meu avô pedia para nós, os netos, lhe lavarmos os pés, sentados num banquito de madeira, junto à velha lareira; ou quando, correndo riscos desnecessários para os nossos seis ou sete anos, íamos à capoeira aliviar o corpo junto das galinhas e dos galos que, quando estávamos acocorados, nos pareciam maiores do que nós.
Tudo isso acabou quando os meus avós mandaram fazer a casa de banho! Foi no velho quarto contíguo à cozinha que nasceu a nova casa de banho dos meus avós, um novo compartimento dotado de equipamento sanitário que permitia realizar as necessidades fisiológicas e a higiene pessoal, sem correr riscos desnecessários no galinheiro. Com a nova casa de banho, veio também uma pequena bancada com um lava-louças, junto ao postigo, e uma caldeira encaixada na velha lareira, para aquecer a água do banho.
Era um luxo! Haviam substituído o candeeiro a petróleo pela luz elétrica e chegava, pouco depois, todo o conforto da água corrente em casa, através de duas torneiras: uma na cozinha, outra na casa de banho.
Desde esse dia, aumentou exponencialmente o nível do conforto das rotinas diárias dos meus avós. O meu avô e a minha avó deixaram de se lavar na velha bacia, à beira da lareira, e deixaram de aquecer uma púcara de água para misturar com a água fria do caneco. Deixámos de poder lavar os pés do meu avô na bacia, à beira da lareira, é certo, mas já podíamos ir fazer um xixizinho, sem arriscar umas bicadas nas partes íntimas. Tudo mudou, apenas com uma casa de banho, duas torneiras, uma pequena bancada e uma caldeira. Tudo mudou!
Passados tantos anos, lembrei-me da mudança originada, na altura, por todas aquelas coisas, que são afinal tão simples para nós agora: água na torneira, luz na cozinha, água quente para o banho, poder usar uma latrina…
Contudo, numa destas semanas, de modo completamente imprevisível, a fúria da natureza e as suas inevitáveis consequências fizeram-nos lembrar que não podemos tomar nada como adquirido. Bastou uma semana sem luz e sem água, uma semana a aquecer água para banhos, a misturá-la num balde, a tomar banho à moda antiga numa banheira moderna, a cozinhar à lareira ou num bico improvisado, a caminhar pela casa alumiada por velas ou por um velho candeeiro a petróleo, a lavar roupa à mão…Que semana! E os recursos ali à frente: eletrodomésticos variados, máquinas diversas e recursos tecnológicos, inúteis, à espera, inertes…
Depois, ao sétimo dia fez-se luz! E nós, já abalados na esperança e quase incrédulos, agradecemos e, sem perder tempo, ligámos luzes, abrimos torneiras, tomámos banhos, lavámos roupas, aspirámos, cozinhámos, telefonámos, ligámos computadores, fomos à internet...
E nesse dia reviveu-se afinal uma experiência em muito semelhante àquela em que comemorámos, em família, a inauguração da nova casa de banho na velha casa dos meus avós!

 
Célia Lima, fevereiro de 2013

 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Dois mil e treze


Começou mais um ano novo e, como sempre, despedimo-nos do anterior, repetindo rotinas anuais numa das semanas mais belas do ano, a semana do Natal.
Na verdade tudo costuma começar uns dias antes do dia de Natal e julgo que algo peculiar acontece com todos nós, de modo mais ou menos consciente. Há um certo momento, um momento especial, em que uma espécie de onda de amor e de amizade emerge de entre todas as nossas emoções, criando uma predisposição para nos focarmos naqueles que são realmente importantes para nós: a nossa família e os nossos amigos.
Depois, consoante a nossa disponibilidade, concentramo-nos nos nossos papéis de filho, neto, pai, mãe, sogro, sogra, tio, padrinho, afilhado, cunhado, amigo… e abraçamos mais uma vez as tradições natalícias, desligamos do resto do mundo e dedicamos tempo e atenção a todos aqueles a quem estamos unidos por laços indeléveis.
Cumprimos quase tudo a preceito: preparamos a casa, enchemos a despensa, pomos (ou não) aventais e deitamos mãos à obra. À hora certa, regamos abundantemente o bacalhau com azeite, deleitamo-nos com os doces natalícios, voltamos à carga com o peru recheado e mais tarde com a tradicional “roupa velha”. Acompanhamos tudo com um bom vinho, uma boa fogueira e muitas gargalhadas. À nossa volta, o riso puro e inocente das crianças completa o quadro. É a festa da família e não há melhor prenda possível do que dedicar-lhe tempo e atenção.
Passados uns dias, o fim de ano obriga a um novo festim.
Na companhia de amigos ou de familiares, tentamos despedir-nos do ano velho e entrar no ano novo num clima de alegria, otimismo e boa disposição. A mesa mais uma vez está cheia, bem regada, e o ambiente, com muita música, impede a chegada do sono. Às 00h00, certinhas, tentamos agarrar o momento, perceber que já cá estamos, em 2013! Mais um ano novo, mais uma oportunidade, mais uma dádiva de vida, mais um milagre!
Passada a euforia momentânea, surge, pé ante pé, a velha sensação, já experimentada em anos anteriores, a impressão de afinal ser tudo o mesmo: mais um momento, um minuto, uma hora, várias… e um novo dia que, segundo o calendário, é já afinal num novo ano. Mais tarde, lentamente, começamos a inserir neste novo ano as velhas rotinas de sempre e esperamos que pouco mude, a não ser que seja para melhor.
Dois mil e treze já cá está, com algumas desconfianças, vários medos, muitas expectativas, mas sobretudo com o enorme desejo de que a viagem que agora se inicia nos encaminhe para um bom porto de abrigo, onde a esperança volte a fazer parte das nossas vidas e onde as histórias que imaginamos para os nossos filhos possam ter finais felizes.

 

Célia Lima, janeiro de 2013

domingo, 9 de dezembro de 2012

Momentos


Era dia de festa,
E a roupa era nova, feita a propósito.

Dois rostos fixos na máquina,
com desejos vãos de eternizar o momento:
Retalho de festa, uma felicidade emprestada,
por vezes, roubada…
Respiram a alegria que pairava no ar
e embalam ânsias muito ternas… embalando…
E a festa lá fora: celebrar!

Retrato simples e puro de outrora!
Crianças, ainda, desejosas, curiosas…
Tão doces e serenas apenas!
Olhares meigos - tão ansiosos - bem me lembro!
Tudo à flor da pele!
E boiando à deriva, dois valentes marinheiros do improviso…

Quem diria, vendo a fotografia?

Surpreendidos por violentas tempestades,
Testemunhas de todas as marés,
Dois náufragos…
Mas sempre suportando:
SO-BRE-VI-VER!
   Tão puros, tão doces ainda!
Depois, num espaçar de carinhos oprimidos, estremecem…
E, pouco depois, ventos indesejados…
E a tempestade outra vez!
E mais uma, e mais outra vez…

Mas aquele era um dia de festa!
Com roupa nova, feita de propósito!

E as duas crianças - decididas, corajosas -
Treinando pequenos sorrisos, pequeninos!
   Eram tão pequenos ainda!
Lembranças de uma festa que não era sua,
E os ventos oprimidos, reprimidos, ansiosos…

Contudo, era dia de festa!
Roupa nova, feita a propósito.
Pose treinada, olhos fixos na máquina: Clic
Momentos!

Procurar a mota da Nancy


Natal de 2012
Procurar a mota da Nancy fez parte da agenda do fim de semana e foi tal a aventura que teve direito a uma pequena brincadeira.

A mota e a boneca

Uma menina queria uma boneca,
Queria uma boneca com uma mota!

“Uma boneca com uma mota?”
Pergunta a mãe, num tom espantado.

“Uma mota com uma boneca!”
Exclama o pai, todo admirado.

“Sim, sim, uma boneca e a sua mota!
Depois, eu ponho a boneca em cima da mota
E vamos as duas numa grande aventura!”

E lá foram elas!
Brrrummm…
Sempre em viagem, pela estrada fora,
Mil aventuras a qualquer a hora!
Brrruumm, brrruummm…

Depois, já cansadas, regressam a casa…
“Como correu a vossa viagem?”, pergunta a mãe, toda atenciosa.
“Já voltaste da vadiagem?”, interroga o pai, com voz curiosa.

“Visitei aldeias, vilas e cidades,
Conheci gente de todas as idades!
Vivi aventuras maravilhosas,
Eram tantas coisas: todas espantosas!”

Mais tarde, ao deitar, cansada e contente,
A menina deu beijinhos a toda a gente!

E foi nesse momento, sob o luar,
que ouviu a boneca e a mota, de novo, a abalar:
Brrruuuummmm!

Célia e Tita, 09/12/12

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Momentos de criatividade da Tita

Um Natal bem passado

Era uma vez uma família que festejava sempre o dia de Natal.
Era uma família muito pobre, mas que vivia muito feliz. Tinham chocolates, faziam a comida com os alimentos da horta e bebiam água.
Na noite de Natal, fizeram a árvore de Natal, enfeitaram a lareira e decoraram a casa toda. Era uma casa muito pequenina!
Nessa noite aconteceu algo muito estranho. A casa começou a tremer, a tremer cada vez mais…
- O que será? - perguntou a mãe.
- Passa-se alguma coisa…- disse o pai.
- Se calhar é o Pai Natal! – exclamou o menino.
- Olha que se calhar tens razão! – disse o pai, com um ar curioso.
Entretanto, o pai, a mãe e o filho começaram a ouvir um barulho que parecia vir da chaminé.
A mãe exclamou:
- Olha, o som vem da nossa chaminé!
O menino disse assim:
- Não é um foguetão de certeza! Tenho mesmo a certeza que é o Pai Natal! Hum, vamos cá ver…
O menino aproximou-se da chaminé para ir espreitar. Depois, disse com ar aflito:
- Papá, é mesmo o Pai Natal e está preso na chaminé. Será que consegues tirá-lo de lá? Por favor, diz que sim.
José, o tal menino, estava muito aflito! Ele pedira uma prenda ao Pai Natal e estava preocupado com ele. Tinha receio que ele não conseguisse sair dali. Queria muito ajudar o Pai Natal.
Então, o pai do José, com a ajuda do seu filho, pegou na escada e subiu ao telhado. Depois, o filho e o pai puxaram o Pai Natal e conseguiram tirá-lo da chaminé. Finalmente, o Pai Natal estava livre.
O Pai Natal disse:
- Obrigado por me salvarem! Vocês os três merecem uma prenda! Eu queria descer pela vossa chaminé mas estou muito gordo…e não fui capaz. Não teria conseguido sem a vossa ajuda. Agradeço imenso. Estou tão cansado! Posso dormir cá esta noite?
- Claro que sim. – exclamou o pai.
Na manhã seguinte, o menino reparou que o Pai Natal tinha acordado muito cedo. Chegou à sala e viu o Pai Natal, que já estava pronto para partir. Quando se despediu, convidou-os para irem dormir ao Polo Norte.
O pai do José respondeu:
- Claro que sim, com muito prazer!
Foi assim que o José e os seus pais, a Maria e o Miguel, foram para o Polo Norte. O José gostou tanto que ficou lá a viver para sempre com os seus pais.
FIM

05/12/12 Matilde Lima