Mal abriu os olhos, viu a claridade da manhã que espreitava
por entre duas ou três frestas da persiana mal fechada, anunciando mais um belo
domingo soalheiro. Fechou novamente os olhos e deu conta do silêncio quase
mágico que caracteriza as manhãs de domingo, aquele tipo de silêncio que nos
agarra à cama mais um pouco, nos embala o corpo e a mente, nos fecha novamente
os olhos e nos ordena que durmamos mais um pouco, só mais um pouco…
Foi nesse preciso momento que ouviu o leve rumor de um pequeno
corpo a virar-se, não muito longe dali. Depois, o som de pés a tocarem o soalho
de madeira, pequenos passos que se dirigiam para um destino.
Percebeu que o filho acabara de se levantar e, dependendo da
hora, seguir-se-ia, invariavelmente, um de dois cenários: chegado à porta,
viraria à direita e enfiar-se-ia sorrateiramente na cama dos pais, ou então,
seguiria pela esquerda e, sem grandes barulhos, iria para a sala onde, sentado
no melhor lugar do sofá, seria “rei e senhor” do comando e veria todos os
desenhos animados que quisesse, fazendo zapping
entre meia dúzia de canais da especialidade.
Não deve ser muito cedo, pensou a mãe, quando o sentiu
afastar-se em direção à sala. Já sabia que era lá que ele se manteria durante
uma boa parte da manhã, o tempo que demorasse a preguiça dos pais e o ritual
dos arranjos e dos arrumos matinais.
Lembrou-se de quando era pequena e das manhãs de domingo
sempre compridas e apressadas: o banho matinal, a roupa domingueira, a
caminhada rumo à catequese ou à missa, as compras no mercado, o regresso a casa,
a pé ou de bicicleta… e os desenhos animados a acabarem. Que grande azar!
Seguia-se a TV Rural e, claro,
esperar pela manhã do sábado seguinte, caso houvesse tempo, ou por uma qualquer
manhã de domingo, se conseguisse despachar-se mais cedo da missa e do mercado.
Em tempos idos!
Tantas mudanças, pensou… tantas!
Ainda era cedo, demasiado cedo para pensar em coisas sérias.
E era domingo de manhã! Fechou novamente os olhos e sentiu vontade de dormir
mais um pouco, só mais um pouco…
Célia Lima, agosto de 2013