quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Domingo de manhã


Mal abriu os olhos, viu a claridade da manhã que espreitava por entre duas ou três frestas da persiana mal fechada, anunciando mais um belo domingo soalheiro. Fechou novamente os olhos e deu conta do silêncio quase mágico que caracteriza as manhãs de domingo, aquele tipo de silêncio que nos agarra à cama mais um pouco, nos embala o corpo e a mente, nos fecha novamente os olhos e nos ordena que durmamos mais um pouco, só mais um pouco…
Foi nesse preciso momento que ouviu o leve rumor de um pequeno corpo a virar-se, não muito longe dali. Depois, o som de pés a tocarem o soalho de madeira, pequenos passos que se dirigiam para um destino.
Percebeu que o filho acabara de se levantar e, dependendo da hora, seguir-se-ia, invariavelmente, um de dois cenários: chegado à porta, viraria à direita e enfiar-se-ia sorrateiramente na cama dos pais, ou então, seguiria pela esquerda e, sem grandes barulhos, iria para a sala onde, sentado no melhor lugar do sofá, seria “rei e senhor” do comando e veria todos os desenhos animados que quisesse, fazendo zapping entre meia dúzia de canais da especialidade.
Não deve ser muito cedo, pensou a mãe, quando o sentiu afastar-se em direção à sala. Já sabia que era lá que ele se manteria durante uma boa parte da manhã, o tempo que demorasse a preguiça dos pais e o ritual dos arranjos e dos arrumos matinais.
Lembrou-se de quando era pequena e das manhãs de domingo sempre compridas e apressadas: o banho matinal, a roupa domingueira, a caminhada rumo à catequese ou à missa, as compras no mercado, o regresso a casa, a pé ou de bicicleta… e os desenhos animados a acabarem. Que grande azar! Seguia-se a TV Rural e, claro, esperar pela manhã do sábado seguinte, caso houvesse tempo, ou por uma qualquer manhã de domingo, se conseguisse despachar-se mais cedo da missa e do mercado.
Em tempos idos!
Tantas mudanças, pensou… tantas!
Ainda era cedo, demasiado cedo para pensar em coisas sérias. E era domingo de manhã! Fechou novamente os olhos e sentiu vontade de dormir mais um pouco, só mais um pouco…

Célia Lima, agosto de 2013