quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um dia de outono

No momento em que escrevo, espreito pela janela o vento que passa entre os ramos do meu pomar e ouço os primeiros pingos grossos de chuva que caem espapaçados aos pés das árvores despidas. E este tempo tristonho parece-me mais adequado do que o dos dias quentes e alegres de Setembro ou de Outubro, quando um verão tardio se passeava por cá de forma quase despropositada.
“Finalmente o outono!” Desabafei para mim mesma, quando o sol não apareceu.
Não sei bem porquê, mas acho que o vento e a chuva se adequam melhor às notícias que nos têm invadido o dia a dia. É que as más notícias precisam de um cenário à medida: dias de mau tempo!
Agora sim, temos condições meteorológicas adequadas para sentir na pele o verdadeiro efeito das novidades: o medo da tempestade que virá; o frio angustiado do desemprego; a inquietação de quem mergulha no trabalho precário; a tormenta que emerge das contas por pagar; o vento amargo da falta de esperança, lembrando antigas memórias ouvidas contar aos nossos avós e bisavós- lareiras apagadas, panelas de sopa fria, salgadeiras vazias, remédios por aviar…
Eram histórias que ouvia e que me pareciam tão antigas, tão distantes…
O outono de que vos falo hoje não é o do frio que se tapa com casacos ou com cobertores modernos. É o do frio que não se quer ter, ao qual se quer resistir, mas que teima em nos perseguir e arrombar as defesas das nossas famílias. É um frio que nos surpreende, mesmo quando não queremos, o frio da falta, da tristeza, do desânimo, do desespero que insiste em entrar todos os dias nas nossas casas através de vozes secas e frias saídas da televisão, da rádio ou das letras gordas dos cabeçalhos dos jornais.
Jurei a mim mesma várias vezes que ia ser otimista, precisava de o ser. Escrevi sobre isso: valorizar o que temos! Mas agora, nesta tarde de outono, vejo tudo escuro: dentro e fora de mim. E não gosto desta sensação.
Vejo um fim de ano em que o dinheiro vai ser cada vez menos e as contas cada vez mais e maiores. Vejo 2012 a anunciar sacrifícios que me parecem desumanos para muitas famílias que querem honrar os seus compromissos e foram ensinadas a fazê-lo: mais impostos, combustíveis, prestações, contas, seguros, saúde, casas, hipotecas…
Vejo um país desgovernado há anos, repleto de dívidas escondidas, dívidas camufladas, disfarçadas, omitidas! Vejo muitos a perderem direitos, a ganharem em vergonha o que perdem quase todos os dias em dignidade. Vejo profissões honradas a serem arrastadas pela lama, como bodes expiatórios de tudo isto. E vejo alguns silêncios tristes e envergonhados que encobrem a vontade de gritar bem alto: não é justo!
Pagar a insustentabilidade do país obriga-nos a pôr em causa a sustentabilidade das nossas famílias. Pagaremos uma fatura enorme e, ainda assim, deixaremos o futuro dos nossos filhos hipotecado, atolado numa dívida brutal. Essa é a verdade! E esta dura realidade revolta-nos e envergonha-nos. Como foi possível deixarmos que isto nos acontecesse?
É por tudo isto que hoje me deixei ficar triste, triste como este dia de outono, um dia próprio para sentimentos assim.


Célia Lima
Novembro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Ânsias de mãe e de filho



Era uma manhã igual a todas as outras, com exceção de um pequeno mas nada insignificante pormenor: ia levar o filho pela primeira vez à escola!
Preparara o pequeno para a novidade, convencendo-o de que ir à escola era crescer ainda mais, convencendo-o de que, assim, iria aprender muito mais coisas e de que, dentro de pouco tempo, já estaria na escola dos grandes.
Com a criança, estava tudo tratado. Mal ou bem, o pequeno vestira a bata, pusera a mochila nova às costas e enfiara o carrinho amarelo no bolso. Por dentro, o coração parecia querer saltar-lhe do peito, tal era a aflição que o dominava, mas por fora os seus oitenta e sete centímetros pareciam naquele dia muito maiores! Tinha um ar sério. Já tinha três anos: tinha que ir à escola e queria ir à escola!
A mãe olhava para ele, pelo canto do olho, receando perder a coragem de entregar o seu menino assim, sem quê nem para quê, a alguém estranho, a alguém que não sabia ainda como ele era especial, que não sabia que deixar um filho na escola pela primeira vez era igualmente difícil para um filho e para uma mãe.
Ele fazia-se forte, mas apertava o carrinho no bolso com quanta força tinha. Ela apressava a saída de casa, puxando-o nervosa pela única mão livre, embora sentisse uma força sobre-humana a impedi-la de sair.
Chegaram à porta da escola. Escondido atrás das pernas da mãe, ele espreitava assustado a algazarra já instalada no pátio amplo daquela casa a que a mãe chamara a “sua escola”. Num riso nervoso, ela cumprimentou a professora e disse, numa rapidez que disfarçava a aflição: “Cá está o José!”.
Mãe e filho, com o coração apertado, fingindo uma força que não tinham, despediram-se rapidamente, com o jeito brusco de quem aprendeu a esconder emoções.
Ele, porque queria ser grande, engoliu as lágrimas e fez-se forte.
Ela, simulando uma pressa própria das mães, empurrou-o disfarçadamente para junto da professora, limpou com a manga os olhos embaciados, virou costas e entrou no carro.
Aquele dia foi um dos mais compridos da sua vida e só voltou a respirar bem já perto da noite, quando o seu menino correu para os seus braços, no corredor da escola.
Nesse momento, com um suspiro saído das entranhas, agarrou o filho ao colo e apertou-o contra si, num abraço longo.
Foi assim no primeiro dia de escola.

Célia Lima
Outubro de 2011