domingo, 2 de outubro de 2011

Ânsias de mãe e de filho



Era uma manhã igual a todas as outras, com exceção de um pequeno mas nada insignificante pormenor: ia levar o filho pela primeira vez à escola!
Preparara o pequeno para a novidade, convencendo-o de que ir à escola era crescer ainda mais, convencendo-o de que, assim, iria aprender muito mais coisas e de que, dentro de pouco tempo, já estaria na escola dos grandes.
Com a criança, estava tudo tratado. Mal ou bem, o pequeno vestira a bata, pusera a mochila nova às costas e enfiara o carrinho amarelo no bolso. Por dentro, o coração parecia querer saltar-lhe do peito, tal era a aflição que o dominava, mas por fora os seus oitenta e sete centímetros pareciam naquele dia muito maiores! Tinha um ar sério. Já tinha três anos: tinha que ir à escola e queria ir à escola!
A mãe olhava para ele, pelo canto do olho, receando perder a coragem de entregar o seu menino assim, sem quê nem para quê, a alguém estranho, a alguém que não sabia ainda como ele era especial, que não sabia que deixar um filho na escola pela primeira vez era igualmente difícil para um filho e para uma mãe.
Ele fazia-se forte, mas apertava o carrinho no bolso com quanta força tinha. Ela apressava a saída de casa, puxando-o nervosa pela única mão livre, embora sentisse uma força sobre-humana a impedi-la de sair.
Chegaram à porta da escola. Escondido atrás das pernas da mãe, ele espreitava assustado a algazarra já instalada no pátio amplo daquela casa a que a mãe chamara a “sua escola”. Num riso nervoso, ela cumprimentou a professora e disse, numa rapidez que disfarçava a aflição: “Cá está o José!”.
Mãe e filho, com o coração apertado, fingindo uma força que não tinham, despediram-se rapidamente, com o jeito brusco de quem aprendeu a esconder emoções.
Ele, porque queria ser grande, engoliu as lágrimas e fez-se forte.
Ela, simulando uma pressa própria das mães, empurrou-o disfarçadamente para junto da professora, limpou com a manga os olhos embaciados, virou costas e entrou no carro.
Aquele dia foi um dos mais compridos da sua vida e só voltou a respirar bem já perto da noite, quando o seu menino correu para os seus braços, no corredor da escola.
Nesse momento, com um suspiro saído das entranhas, agarrou o filho ao colo e apertou-o contra si, num abraço longo.
Foi assim no primeiro dia de escola.

Célia Lima
Outubro de 2011

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