A
net vaticinava bom tempo e a semana
foi passando, mais animada do que era habitual, na expectativa de ver cumprida
a promessa: no fim de semana iria haver sol!
O
sábado chegou finalmente, cheio de uma luz bem-disposta, apropriada para ajudar
a enxugar as almas tristonhas.
Como
de costume, planearam coisas simples, coisas de família: ajeitar a casa, cortar
a relva, ir beber café, fazer uma refeição calma em família … Ainda se falou na
possibilidade de ir ao shopping, mas
era melhor não, não convinha gastar dinheiro.
-
Como hoje está bom tempo, que tal chamar o pessoal para um lanchinho? – sugeriu
alguém.
-
Boa ideia! – ouviu-se logo, em coro.
Fizeram-se
uns telefonemas, mandaram-se recados e sms.
Finalmente,
por volta das cinco, começaram a chegar os convidados. A tarde estava ótima, o
ar exalava novos perfumes e, à medida que o dia ia avançando, tudo na natureza
parecia mais vivo, mais cheio de cores e de sons.
-
O que é que aconteceu? Temos festa? – perguntavam à medida que iam chegando.
-
É para aproveitar melhor o primeiro dia de primavera!
Distribuíram-se
cumprimentos, encetaram-se conversas descomprometidas, sinceras e informais.
Depois, com naturalidade e sem pressas, os “comes e bebes” foram sendo ajeitados
pelas mesas, na rua e dentro de casa, conforme a vontade e o apetite de cada um.
Por cima de velhas toalhas coloridas e desbotadas, tremoços, pevides, queijos,
pão, enchidos, bolachas e bolachinhas, carnes, vinhos, sumos, cervejas… tudo numa
saudável mistura, à disposição de todos. Pratos, copos e talheres passavam de
mão em mão, numa simplicidade antiga, descomprometida de formalismos e alheia a
modernices e a regras de etiqueta supérfluas e cansativas. As cadeiras e os bancos
diversos ajeitavam-se em semicírculos casuais, enquanto se ouviam as peripécias
da semana ou se comentavam as brincadeiras das crianças.
E
as crianças brincavam sem parar, correndo por entre as árvores, andando de
bicicleta, levando e trazendo brinquedos, numa agitação própria de quem está
feliz, de quem queria aproveitar cada minuto do dia e cada segundo que passava.
Num afogadilho, passavam pelas mesas, agarravam à pressa algo para comer e
saíam disparadas rumo a uma nova brincadeira.
Desprendida
de cansativas convenções sociais, sem urbanidades extenuantes, sem falsas
formalidades, a tarde ia passando e todos descansavam de mais uma semana, entre
amigos, à-vontade, a aproveitar o bom tempo, a cultivar o que de melhor a vida oferece:
saúde, família, amigos, sol.
Comeu-se
e bebeu-se animadamente. Disseram-se tolices, repetiram-se velhas anedotas,
recontaram-se histórias. Riu-se. Riu-se muito, como sempre. Também se tiveram
conversas mais sérias, falou-se da crise, desabafaram-se contrariedades e repeliram-se
medos e frustrações.
À
medida que a tarde foi avançando, o sol despediu-se e foi-se também desfazendo
a companhia, naturalmente, sem grandes despedidas, no ritmo simples, calmo e
aconchegante de quem é praticamente da família.
Foi
na primeira tarde de primavera. E já era abril! Acompanhados pelos amigos e
pela família, celebraram o sol que chegara finalmente!
Célia Lima