quinta-feira, 31 de maio de 2012

Rir com as pequenas coisas

Estava um belo final de tarde e, como de costume, passou pela pré-escola, para buscar a pequena.
Mal entraram as duas no carro, desligou o rádio, para poderem conversar um bocadinho. As perguntas do costume: “Como é que correu a escola? O que é que fizeste?”. As respostas habituais: “Fiz trabalhos e brinquei. E tu?”
A viagem era curta, calma e preguiçosa, como costumam ser os regressos a casa, nos finais de tarde.
Naquele dia, como sempre, o ritual repetia-se: vigilante e curiosa, a pequena pesquisava para lá da janela todos os detalhes que pudessem tornar aquele regresso mais interessante. Cabrinhas, burros, vacas, ovelhas ou outros animais que estivessem no raio de alcance dos seus olhos (na beira dos caminhos, entre pomares ou junto aos quintais), tudo podia ser motivo de conversa, tudo podia despertar a sua atenção. Uma papoila vermelhinha nascida numa valeta, um gato sentado em cima de um muro, uma laranjeira carregadinha, um triciclo esquecido junto a um portão…
A viagem durava cerca de cinco minutos, mas nunca era exatamente igual, apesar de o trajeto ser sempre o mesmo.
Naquele dia, à curva da velha ordenha, algo surpreendeu a criança. Como de costume, este era um lugar onde passavam mais devagar para observar as vacas e os bezerros que pastavam descansados e pachorrentos, à direita, no prado verdejante de várias infâncias.
Mesmo no sítio mais fechado da curva, o ângulo de visão é privilegiado e aí, ao abrir-se a janela, quase se consegue fazer uma festinha num bezerro mais aventureiro que ouse aproximar-se da latada junto à estrada. Foi exatamente nesse momento que a menina exclamou, num inesperado grito de admiração:
- Mãe, olha, as vacas ainda têm o preço nas orelhas!
A mãe ouviu e, passado o espanto inicial, desatou a rir à gargalhada. Meio a sorrir, a menina olhava, atenta, aquela súbita risada. Entretanto, a mãe esclareceu:
- Não é o preço, filhota, é um brinco para identificar os animais, para saberem quando é que foram vacinados.
- A sério?! – comentou, com riso malandro.
Depois, riu-se também a bom rir, muito orgulhosa por ter dito uma coisa tola, mas “divertida”, uma coisa que fez rir a mãe.
Já à noite, repetiu, vaidosa, a sua própria história a todos quantos a quiseram ouvir: a história da menina que fazia rir e ria com pequenas coisas.

Célia Lima, Junho de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Há palavras feias, mas outras abusam!


Há palavras graves, palavras desengraçadas, antipáticas até, palavras que nos deixam, logo à partida, desconfiados, só de as ouvirmos. Austeridade é uma delas.
Julgo que ouvi esta palavra pela primeira vez numa aula, há vinte e tal anos, a propósito de uma personagem qualquer duma história. Lembro-me vagamente que era um velho pouco dado aos prazeres da vida, severo, cruel e ressequido como uma cigarra velha.
Mais tarde, ainda antes desta nossa malfadada crise, das poucas vezes em que ouvi este vocábulo, parecia-me sempre coisa má, coisa ruim e, invariavelmente, aparecia associado a gente demasiado circunspecta, dada a poucos sorrisos e a muitos dedos em riste.
Esta minha má vontade em relação à palavra era, vejo-o agora, uma espécie de sinal de alerta para um tempo em que ela saltaria das histórias lidas e ouvidas e aterraria, num voo em queda livre, mesmo em cima das nossas vidas: vivem-se tempos de austeridade!
O dicionário confirmou-me, ainda há pouco, o meu mau pressentimento e a análise mais rigorosa dos seus significados deixa-me, no mínimo, com insónias. Vejamos:
AUSTERIDADE (latim austeritas, -atis) s. f.:
1. Qualidade de austero;
2. Cuidado escrupuloso em não se deixar dominar pelo que agrada aos sentidos ou deleita a concupiscência;
3. Severidade, rigor.
Confirma-se a pior das minhas suspeitas: para além de ser uma palavra feia e séria, o seu significado é capaz de nos levar desta para pior. Será que eu entendi bem o que esperam de nós em tempos de austeridade?
1.      Pedem-nos, pois, que sejamos austeros, ou seja, rígidos, rigorosos, rijos, ríspidos, rudes, severos, duros e inflexíveis;
2.      Exigem-nos que tenhamos um cuidado extremo em não nos deixarmos dominar por desejos relativos aos sentidos, isto é, desejos que decorram diretamente do que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos ou provamos, ou que possam criar prazer;
3.      Relembram-nos, ainda, que devemos guiar-nos pela inflexibilidade e pela rigidez.
Que tal acrescentarem qualquer coisa como: sinónimo de deixar de comer, deixar de beber, deixar de sorrir, deixar de…TUDO!
Esta palavra devia ser abolida, eliminada dos livros. Espero que haja alguém que tenha ao menos a decência de a proibir nos livros com histórias infantis ou nos desenhos animados. No mínimo, incluam-na na lista dos produtos para maiores de dezoito e, sobretudo, não incentivem as crianças a ouvir noticiários ou a pesquisar o significado das palavras feias.
Confirmar o significado da palavra austeridade foi a pior ideia que tive hoje. Espero não voltar a fazer algo do género. Já bem basta sentir na pele as consequências da austeridade, não precisava nada de conhecer a profundidade e a abrangência do seu significado.
Ainda bem que a maioria de nós não perde tempo a ir ao dicionário!


Célia Lima, Rodilha, Maio de 2012