Estava um belo
final de tarde e, como de costume, passou pela pré-escola, para buscar a
pequena.
Mal entraram
as duas no carro, desligou o rádio, para poderem conversar um bocadinho. As
perguntas do costume: “Como é que correu a escola? O que é que fizeste?”. As
respostas habituais: “Fiz trabalhos e brinquei. E tu?”
A viagem era curta,
calma e preguiçosa, como costumam ser os regressos a casa, nos finais de tarde.
Naquele dia, como
sempre, o ritual repetia-se: vigilante e curiosa, a pequena pesquisava para lá
da janela todos os detalhes que pudessem tornar aquele regresso mais
interessante. Cabrinhas, burros, vacas, ovelhas ou outros animais que estivessem
no raio de alcance dos seus olhos (na beira dos caminhos, entre pomares ou
junto aos quintais), tudo podia ser motivo de conversa, tudo podia despertar a
sua atenção. Uma papoila vermelhinha nascida numa valeta, um gato sentado em
cima de um muro, uma laranjeira carregadinha, um triciclo esquecido junto a um
portão…
A viagem durava
cerca de cinco minutos, mas nunca era exatamente igual, apesar de o trajeto ser
sempre o mesmo.
Naquele dia, à
curva da velha ordenha, algo surpreendeu a criança. Como de costume, este era
um lugar onde passavam mais devagar para observar as vacas e os bezerros que
pastavam descansados e pachorrentos, à direita, no prado verdejante de várias
infâncias.
Mesmo no sítio
mais fechado da curva, o ângulo de visão é privilegiado e aí, ao abrir-se a
janela, quase se consegue fazer uma festinha num bezerro mais aventureiro que
ouse aproximar-se da latada junto à estrada. Foi exatamente nesse momento que a
menina exclamou, num inesperado grito de admiração:
- Mãe, olha,
as vacas ainda têm o preço nas orelhas!
A mãe ouviu e,
passado o espanto inicial, desatou a rir à gargalhada. Meio a sorrir, a menina
olhava, atenta, aquela súbita risada. Entretanto, a mãe esclareceu:
- Não é o
preço, filhota, é um brinco para identificar os animais, para saberem quando é
que foram vacinados.
- A sério?! –
comentou, com riso malandro.
Depois, riu-se
também a bom rir, muito orgulhosa por ter dito uma coisa tola, mas “divertida”,
uma coisa que fez rir a mãe.
Já à noite, repetiu,
vaidosa, a sua própria história a todos quantos a quiseram ouvir: a história da
menina que fazia rir e ria com pequenas coisas.
Célia
Lima, Junho
de 2012