Num
destes dias, num final de manhã, decidi fazer uma boa ação: dar sangue.
Encaminhei-me
para os gabinetes improvisados numas salas da escola, preenchi o folheto de
inscrição - um questionário bastante rigoroso e invasivo da minha intimidade –
e aguardei, algo nervosa, a chegada da minha vez.
Entretanto,
em conversa com colegas, afugentava o meu “acobardamento crónico em coisas de
saúde”, disfarçando o nervoso miudinho com brincadeiras e ironias tolas mas
inofensivas. Quem me conhece sabia que estava receosa, que não lido bem com
agulhas, mas pretendia ser valente, ser corajosa, ajudar, contribuir. Por isso,
fui ficando, à espera da minha vez. E ela chegou, inevitavelmente.
Comecei
por dirigir-me a uma das salas para uma breve consulta com uma médica que
começou por me medir a tensão arterial e que, já com ar surpreendido, me
auscultou a pulsação. Ambas estavam anormalmente altas. “É do nervoso miudinho.”,
expliquei-lhe. “Mas parece tão calma, tem um ar tão sereno.”, retorquiu,
olhando para mim com ar curioso. “É da profissão, sabe que o ar também conta!”,
disse eu. “Ai conta, conta.”, reiterou ela, com ar divertido, mas assertivo.
Foi
assim que chumbei nas minhas boas intenções de dar sangue. E saí dali,
despedindo-me da simpática médica, sem poder dar sangue, mas com o tal aspeto
seguro, calmo e firme de quem aprendeu a parecer sempre bem, a aparência serena
e tranquila de quem finge trazer tudo controlado, de quem aparenta aguentar
tudo o que vier.
Saí
triste, confesso, e algo perturbada, embora pouco se notasse por fora. Sabia
que o meu estado físico não tinha apenas a ver com o “nervoso miudinho” de ir
dar sangue. Sabia que muitas vezes, em muitos dos dias, o tal ar “sereno e
seguro” não passa disso mesmo e que por dentro há - sobretudo nos últimos
tempos - um reboliço de emoções. Há desânimo, há uma luta diária por escapar
aos tentáculos de uma espiral de pessimismo, por conseguir resistir a tantas
incertezas, a tantas mudanças, a tantos sacrifícios. Mas o ar também conta, “Ai
conta, conta!”. E ainda bem, Sra. Dra, ainda bem, é melhor do que nada.
Célia
Lima, abril de 2013