sexta-feira, 22 de março de 2013

Disfarçar emoções ou nem por isso


 
Num destes dias, num final de manhã, decidi fazer uma boa ação: dar sangue.
Encaminhei-me para os gabinetes improvisados numas salas da escola, preenchi o folheto de inscrição - um questionário bastante rigoroso e invasivo da minha intimidade – e aguardei, algo nervosa, a chegada da minha vez.
Entretanto, em conversa com colegas, afugentava o meu “acobardamento crónico em coisas de saúde”, disfarçando o nervoso miudinho com brincadeiras e ironias tolas mas inofensivas. Quem me conhece sabia que estava receosa, que não lido bem com agulhas, mas pretendia ser valente, ser corajosa, ajudar, contribuir. Por isso, fui ficando, à espera da minha vez. E ela chegou, inevitavelmente.
Comecei por dirigir-me a uma das salas para uma breve consulta com uma médica que começou por me medir a tensão arterial e que, já com ar surpreendido, me auscultou a pulsação. Ambas estavam anormalmente altas. “É do nervoso miudinho.”, expliquei-lhe. “Mas parece tão calma, tem um ar tão sereno.”, retorquiu, olhando para mim com ar curioso. “É da profissão, sabe que o ar também conta!”, disse eu. “Ai conta, conta.”, reiterou ela, com ar divertido, mas assertivo.
Foi assim que chumbei nas minhas boas intenções de dar sangue. E saí dali, despedindo-me da simpática médica, sem poder dar sangue, mas com o tal aspeto seguro, calmo e firme de quem aprendeu a parecer sempre bem, a aparência serena e tranquila de quem finge trazer tudo controlado, de quem aparenta aguentar tudo o que vier.
Saí triste, confesso, e algo perturbada, embora pouco se notasse por fora. Sabia que o meu estado físico não tinha apenas a ver com o “nervoso miudinho” de ir dar sangue. Sabia que muitas vezes, em muitos dos dias, o tal ar “sereno e seguro” não passa disso mesmo e que por dentro há - sobretudo nos últimos tempos - um reboliço de emoções. Há desânimo, há uma luta diária por escapar aos tentáculos de uma espiral de pessimismo, por conseguir resistir a tantas incertezas, a tantas mudanças, a tantos sacrifícios. Mas o ar também conta, “Ai conta, conta!”. E ainda bem, Sra. Dra, ainda bem, é melhor do que nada.


Célia Lima, abril de 2013