sábado, 26 de novembro de 2011

E o tempo a passar

Há uns tempos, quando me preparava para coser um botão que teimava em querer soltar-se, reparei que já não conseguia enfiar a linha na agulha, assim, às primeiras. Achei graça à situação e julgo que a comentei, lembrando antigas memórias em que observava as minhas avós às lambidelas à ponta da linha, enquanto tentavam, em vão, acertar na boca escancarada da velha agulha ferrugenta.
  - Estou com falta de vista? Não! Deve ser só cansaço. - pensei - Ainda sou tão nova!
 Uns dias depois, o diagnóstico foi claro, apesar de disfarçado por trás dos eufemismos e da simpatia própria da minha oftalmologista:
- Sabe, é normal, a partir de determinada idade, começa a ter-se mais dificuldades de visão.- disse ela.
- A partir de determinada idade? Deve ser engano, doutora! – respondi-lhe, com ar divertido.
Depois, fiquei a pensar naquilo. Afinal, há uma idade em que se começa a perder capacidades? Uma idade própria para estrear dores, fraquezas, debilidades menores? Uma idade em que o nosso corpo começa a dar sinais de alerta? Era o que mais me faltava!
Remoí uns dias, indecisa entre a recusa firme ou a aceitação inevitável daquela evidência: já não era uma jovem?!
Ainda que contrariada, fui negociando comigo mesma a despedida da juventude e a entrada definitiva na “meia-idade” (que expressão feia!), ao mesmo tempo que, num esforço tão empenhado quanto consciente, procurava argumentos que provassem ser uma mais-valia esta nova fase da minha vida. Concluí, porém, o inevitável e óbvio. Há que “chamar as coisas pelos nomes” e, de facto, comparada com a juventude, esta “nova idade” não era nenhuma promoção na carreira, não era nenhum prémio de produtividade, nem nenhuma medalha de mérito! Agora era sempre a descer!!!
E eu a olhar para mim mesma, como se me visse pela primeira vez, pasmada com a consciência da descoberta que tinha acabado de fazer. Eu, por fora, a deixar de ser “eu”, a olhar para a minha vida como se a perceção da minha “meia-idade” me reduzisse naquilo que sou. E eu, que quero ser “eu”, a ver-me a mim mesma fora do écran, por momentos, sem conseguir já regressar ao local e à hora exata da ação, num filme em que, a dada altura, houve um breve intervalo para a consciência.
Os olhos fogem-me da linha e da agulha e as coisas e a vida parecem-me mais nítidas do que nunca! Há séculos, Horácio escreveu que devíamos aproveitar o dia. “Carpe diem” era a frase em Latim: Aproveita o momento! E eu perco tempo a pensar em coisas que não posso mudar. E o tempo a fugir-me e esta consciência que não me larga por um segundo…
Consumida com tais pensamentos, desabafei as minhas preocupações, numa longa conversa à meia tarde. Como resposta, chamaram-me tola e eu, mais aliviada, sorri com ar embaraçado, experimentando uma vergonha antiga e ingénua, quase infantil.
Célia Lima, Dezembro de 2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um dia de outono

No momento em que escrevo, espreito pela janela o vento que passa entre os ramos do meu pomar e ouço os primeiros pingos grossos de chuva que caem espapaçados aos pés das árvores despidas. E este tempo tristonho parece-me mais adequado do que o dos dias quentes e alegres de Setembro ou de Outubro, quando um verão tardio se passeava por cá de forma quase despropositada.
“Finalmente o outono!” Desabafei para mim mesma, quando o sol não apareceu.
Não sei bem porquê, mas acho que o vento e a chuva se adequam melhor às notícias que nos têm invadido o dia a dia. É que as más notícias precisam de um cenário à medida: dias de mau tempo!
Agora sim, temos condições meteorológicas adequadas para sentir na pele o verdadeiro efeito das novidades: o medo da tempestade que virá; o frio angustiado do desemprego; a inquietação de quem mergulha no trabalho precário; a tormenta que emerge das contas por pagar; o vento amargo da falta de esperança, lembrando antigas memórias ouvidas contar aos nossos avós e bisavós- lareiras apagadas, panelas de sopa fria, salgadeiras vazias, remédios por aviar…
Eram histórias que ouvia e que me pareciam tão antigas, tão distantes…
O outono de que vos falo hoje não é o do frio que se tapa com casacos ou com cobertores modernos. É o do frio que não se quer ter, ao qual se quer resistir, mas que teima em nos perseguir e arrombar as defesas das nossas famílias. É um frio que nos surpreende, mesmo quando não queremos, o frio da falta, da tristeza, do desânimo, do desespero que insiste em entrar todos os dias nas nossas casas através de vozes secas e frias saídas da televisão, da rádio ou das letras gordas dos cabeçalhos dos jornais.
Jurei a mim mesma várias vezes que ia ser otimista, precisava de o ser. Escrevi sobre isso: valorizar o que temos! Mas agora, nesta tarde de outono, vejo tudo escuro: dentro e fora de mim. E não gosto desta sensação.
Vejo um fim de ano em que o dinheiro vai ser cada vez menos e as contas cada vez mais e maiores. Vejo 2012 a anunciar sacrifícios que me parecem desumanos para muitas famílias que querem honrar os seus compromissos e foram ensinadas a fazê-lo: mais impostos, combustíveis, prestações, contas, seguros, saúde, casas, hipotecas…
Vejo um país desgovernado há anos, repleto de dívidas escondidas, dívidas camufladas, disfarçadas, omitidas! Vejo muitos a perderem direitos, a ganharem em vergonha o que perdem quase todos os dias em dignidade. Vejo profissões honradas a serem arrastadas pela lama, como bodes expiatórios de tudo isto. E vejo alguns silêncios tristes e envergonhados que encobrem a vontade de gritar bem alto: não é justo!
Pagar a insustentabilidade do país obriga-nos a pôr em causa a sustentabilidade das nossas famílias. Pagaremos uma fatura enorme e, ainda assim, deixaremos o futuro dos nossos filhos hipotecado, atolado numa dívida brutal. Essa é a verdade! E esta dura realidade revolta-nos e envergonha-nos. Como foi possível deixarmos que isto nos acontecesse?
É por tudo isto que hoje me deixei ficar triste, triste como este dia de outono, um dia próprio para sentimentos assim.


Célia Lima
Novembro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Ânsias de mãe e de filho



Era uma manhã igual a todas as outras, com exceção de um pequeno mas nada insignificante pormenor: ia levar o filho pela primeira vez à escola!
Preparara o pequeno para a novidade, convencendo-o de que ir à escola era crescer ainda mais, convencendo-o de que, assim, iria aprender muito mais coisas e de que, dentro de pouco tempo, já estaria na escola dos grandes.
Com a criança, estava tudo tratado. Mal ou bem, o pequeno vestira a bata, pusera a mochila nova às costas e enfiara o carrinho amarelo no bolso. Por dentro, o coração parecia querer saltar-lhe do peito, tal era a aflição que o dominava, mas por fora os seus oitenta e sete centímetros pareciam naquele dia muito maiores! Tinha um ar sério. Já tinha três anos: tinha que ir à escola e queria ir à escola!
A mãe olhava para ele, pelo canto do olho, receando perder a coragem de entregar o seu menino assim, sem quê nem para quê, a alguém estranho, a alguém que não sabia ainda como ele era especial, que não sabia que deixar um filho na escola pela primeira vez era igualmente difícil para um filho e para uma mãe.
Ele fazia-se forte, mas apertava o carrinho no bolso com quanta força tinha. Ela apressava a saída de casa, puxando-o nervosa pela única mão livre, embora sentisse uma força sobre-humana a impedi-la de sair.
Chegaram à porta da escola. Escondido atrás das pernas da mãe, ele espreitava assustado a algazarra já instalada no pátio amplo daquela casa a que a mãe chamara a “sua escola”. Num riso nervoso, ela cumprimentou a professora e disse, numa rapidez que disfarçava a aflição: “Cá está o José!”.
Mãe e filho, com o coração apertado, fingindo uma força que não tinham, despediram-se rapidamente, com o jeito brusco de quem aprendeu a esconder emoções.
Ele, porque queria ser grande, engoliu as lágrimas e fez-se forte.
Ela, simulando uma pressa própria das mães, empurrou-o disfarçadamente para junto da professora, limpou com a manga os olhos embaciados, virou costas e entrou no carro.
Aquele dia foi um dos mais compridos da sua vida e só voltou a respirar bem já perto da noite, quando o seu menino correu para os seus braços, no corredor da escola.
Nesse momento, com um suspiro saído das entranhas, agarrou o filho ao colo e apertou-o contra si, num abraço longo.
Foi assim no primeiro dia de escola.

Célia Lima
Outubro de 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O meu sonho era… e tive azar!

Se perguntarmos à maioria dos jovens o que querem da vida, reconhecemos rapidamente vários grupos: os que não sabem; os que não querem saber; os que sabem, mas não querem partilhar com outros o seu projecto de vida, pressentindo que falar disso os impeça de mudar de ideias; e ainda os que declaram, sem grandes hesitações: “Eu quero ISTO!”.
Como professora e como mãe, sei que todos ambicionamos grandes coisas para nós e para os nossos. Muitas vezes, desejamo-lo com tanta força que nos parece impossível que elas não se concretizem. Depois, ficamos tristes, achamos que a vida é nossa madrasta, zangamo-nos mesmo a sério porque nada parece estar do nosso lado e não temos sorte nenhuma!
E é realmente curioso ver como somos todos diferentes nesses momentos de adversidade. Já me aconteceu analisar - em mim e nos outros - o momento em que hesitamos entre a cobardia e a coragem, entre dar um passo para a frente ou dar um passo para trás.
E também aí é possível identificar reacções díspares: há quem desista dos sonhos e “emburre” eternamente, culpando tudo e todos das circunstâncias ou da conjuntura; há quem arranje um plano B e opte por novos objectivos menos ambiciosos, mas igualmente estimulantes; e há também quem persista nos mesmos planos, “lamba” as feridas rapidamente e lute empenhadamente por aquilo que deseja.
Eu cá, quando ouço falar de azar, normalmente começo por acalmar a onda de irritação que surge dentro de mim e lembro-me de algumas frases cujo significado aprendi a respeitar ao longo da vida. “A SORTE DÁ MUITO TRABALHO” é uma dessas frases.
Sobre o azar, tento lembrar-me que falar dele dá azar e que, muitas vezes, não passa de uma boa desculpa. Por isso, evito dar-lhe confiança.
Quanto aos sonhos e objectivos de vida de todos nós, em especial dos nossos jovens, julgo que o melhor conselho será: lutem para concretizar os vossos projectos, sem ficar à espera da “sorte” ou a lamentar o “azar”. Lembrem-se que grande parte da receita está nas vossas mãos: cumprir as obrigações escolares, com responsabilidade, seriedade e brio. Pelo meio, aprendam muitas outras coisas: envolvam-se nas tarefas de casa e da família; arranjem um part-time; aprendam uma profissão… Em suma, construam um projecto de vida, conscientes dos vossos direitos, mas sobretudo dos vossos DEVERES.
Todos os caminhos diferentes deste não são sérios. E todos os jovens e pais que acreditam que os seus sonhos e projectos se concretizam sem trabalho são irresponsáveis.

Célia Lima
Setembro de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ano Novo em Setembro?

O Verão é uma época especial e tenho para mim que é melhor do que a Páscoa ou o Natal. Aliás, tenho até a impressão de que, para muitas famílias, o Verão - sobretudo o mês de Agosto - é uma espécie de Fim de Ano, como se a seguir a ele tudo recomeçasse novamente.
A verdade é que as crianças e os jovens não têm escola; reencontram-se familiares ou amigos que regressam à terra para uns dias de descanso; há festas e romarias por todo o lado; e claro, costuma haver um tempo de férias em família, nem que seja apenas uns dias por casa, com umas idas à praia ou uns almoços mais demorados.
Nesta época do ano, cheia de sol e com um leve sabor a sesta e a preguiça, consigo ter algum tempo livre para fazer coisas que aprecio, mas que adiei, mês após mês: ler um bom livro, ir ao cinema, fazer uns almoços em família, passar umas horas numa esplanada… ou simplesmente não fazer nada.
E esta consciência da futilidade deste mês, da ânsia de não ter que trabalhar, deixa-me, este ano, algo embaraçada, como se não tivesse direito a fazê-lo. Porquê? - pergunto-me.
Porque a crise também já me bateu à porta e porque não sei como hei-de explicar em casa a rapidez com que tudo está a mudar no nosso país, sou, às vezes, invadida por este estranho sentimento de culpa, uma culpa que não é minha e não pode sê-lo, porque em nada contribuí para o estado das coisas.
Estes são, de facto, tempos de grandes obstáculos, são uma das muitas “travessias do deserto” que nos calham ao longo da vida, sei-o muito bem.
Por isso mesmo, já decidi e não vou mudar de ideias: vou parar um bocadinho, sem sentir peso na consciência, aproveitar as minhas férias e, pelo menos, descansar. Tenho direito a descansar! Vou acordar tarde, preguiçar pela casa, beber umas cervejas e comer caracóis. Ah, e passar umas horas na praia ou na esplanada, simplesmente sem fazer nada!
Já agora, aproveitem e descansem também, porque o Ano Novo é já em Setembro. Boas férias!
Agosto, 2011

domingo, 17 de julho de 2011

ESPERANÇA, pela boca de uma criança

- O QUE É A ESPERANÇA? - Perguntei à minha filha mais pequena.
Com receio de que ela não soubesse dar uma resposta à altura, o pai e uma irmã segredaram-lhe ao ouvido: “TER ESPERANÇA É ACREDITAR”.
Pouco interessada no assunto, ela repetiu-me a frase ouvida, decidindo acrescentar, com um desembaraço inesperado, que ter esperança era “estar contente com ir à praia”.
Comecei por disfarçar o riso. Depois, passados uns segundos, percebi a lógica inerente ao seu pensamento: a esperança, ou seja, a expectativa de ir à praia deixava-a feliz por antecipação! Na verdade, ter esperança era para ela - como para todos nós - esperar coisas boas da vida e, para uma criança de 4 anos, isso passa, entre outras coisas, por ir dar uns mergulhos e umas corridas no Osso da Baleia.
Depois de lhe explicar que se tratava de um assunto muito sério, ela decidiu complementar a lista de coisas que esperava da vida: “brincar, fazer desenhos, comer coisas boas, dormir, não fazer birras”… Depois, fez uma pausa séria e, com ar convicto, explicou: “É muito importante portar-me bem, fazer tudo e ajudar a mãe e o pai.” Para culminar, acrescentou, inadvertidamente: “É muito importante regar as plantas!”
Eu sei que pode não vos parecer, mas ela estava de facto a falar de esperança! Ela falava do que esperava de bom da vida, mas também do que não apreciava, dos momentos em que as coisas não corriam bem (metaforicamente representados pelas “birras”) e, já com ar de quem queria ser levada a sério, falou das suas responsabilidades no processo inerente à esperança: portar-se bem, ajudar e, claro, regar as plantas!
Esperança foi a palavra com que iniciei este enigmático diálogo com a minha filha e, sem o esperar, uma mão cheia de pequenas frases soltas proferidas por uma criança acabaram por representar, ainda que de modo pouco explícito, as respostas de todos nós!
Consciente ou inconscientemente, ela sabia o que era a esperança, sabia que TER ESPERANÇA É TER EXPECTATIVAS EM RELAÇÃO AO FUTURO, SABER O QUE SE QUER, AQUILO QUE NÃO SE QUER E, SOBRETUDO, ENVOLVER-SE NO PROCESSO.
Se ela sabia, nós também temos que nos lembrar disso!

Célia Lima, Julho de 2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Quem é que nos tem andado a dar cabo da auto-estima?

Foi com algum espanto que tomei conhecimento do resultado de um estudo recente onde se concluiu que Portugal é o país da Europa onde se trabalha mais horas por dia.
Confrontada com este dado e com o facto aparentemente contraditório da fraca PRODUTIVIDADE que dizem caracterizar-nos a todos (aparentemente sem excepção!), fiz uma rápida pesquisa para tentar perceber os contornos da questão. Comecei por me ver inundada de anedotas e cartoons que nos ridicularizavam a todos, sugerindo que em Portugal se faz de tudo para não trabalhar. Com a auto-estima em baixo e os níveis de confiança a descer vertiginosamente, engoli em seco e continuei. Pouco depois, foi-me explicado, “por A mais B” que, em Portugal, apesar de haver uma ÉTICA do trabalho muito forte, não existe uma ética profissional. Trocado por miúdos, confirmava-se que o TRABALHO é um valor profundamente enraizado na nossa cultura, isto é, o trabalho tem para todos nós uma grande importância, intimamente relacionada com a busca da DIGNIDADE e do RECONHECIMENTO.
Pelos vistos, nós até trabalhamos demasiado, como comprova o facto de grande parte da classe trabalhadora ocupar o seu tempo livre a trabalhar e não a descansar! De facto, em termos de tempo diário de trabalho, nós, Portugueses, ocupamos o terceiro lugar no ranking dos países da OCDE, trabalhando cerca de quarenta e tal minutos por dia a mais do que a média nestes países. Para além disso, trabalhamos aproximadamente quatro horas por dia em actividades familiares e caseiras (em casa, na horta…).
Mas afinal, o que é que se passa connosco? Andamos a “trabalhar para aquecer”? – perguntei-me.
Prossegui as minhas leituras, meio a medo, e percebi que o problema pelos vistos era outro: trabalhar muito não significa trabalhar bem!
Oscilando num misto de orgulho e de embaraço pelo esforço aparentemente inglório de trabalhar sem render que chegue, tropecei inesperadamente na explicação final, e senti uma tristeza genuína, que me acertou de forma tão violenta, como uma calhoada na cabeça. O nosso problema é que, apesar de trabalharmos cerca de quatro horas a mais do que nos outros países, isso de nada nos vale! É que, em Portugal, a CONCORRÊNCIA e o MÉRITO são menos valorizados do que a subserviência - “diz ámen ao teu chefe, nem que ele seja um incompetente” - e a bajulação - a chamada “graxa”. Deste modo, a nossa DINÂMICA e RENTABILIDADE de pouco valerão, se continuarmos a calar injustiças, a trabalhar por nós e pelo colega que anda a fazer “ronha”, a fingir que está tudo bem e que o nosso país está bem entregue, só porque alguém diz coisas bonitas, jurando que tudo vai correr pelo melhor!
Na prática, habituámo-nos a duas coisas: dizer muito mal ou muito bem! Centrámos a nossa atenção na retórica e não nos OBJECTIVOS SÉRIOS. Perdemos a noção do que fazemos e - ironia das ironias - até acreditamos quando alguém nos diz: trabalhas pouco!
Pelos vistos, em Portugal fez-se muita coisa errada, mas quanto a mim e a muita gente que conheço e admiro, duma coisa tenho a certeza: todos aqueles que não têm medo do trabalho e arregaçam as mangas sempre que é necessário, no fim do dia, cansados e muitas vezes mal pagos, não merecem ouvir dizer: “trabalhas muito, mas trabalhas mal!”.
Por isso, a todos os que se limitam a arranjar desculpas e a criticar, podemos dizer: “Orientem-se e orientem-nos! Saibam gerir e rentabilizar os recursos que temos e, já agora, arregacem as mangas também e venham trabalhar!”.

Célia Lima, in Rodilha, 06/2011

À mesa e em família: a história do pão que parecia uma mãe

Num artigo que li, um psicanalista contava um episódio interessante de uma criança que, ao chegar a uma casa onde estava um enorme pão branco no centro de uma mesa, terá dito: “Olha, parece uma mãe!”.
Há já algum tempo que não me acontecia ler uma frase tão pequena, tão inesperada, mas ao mesmo tempo tão fantástica, porque plena de conteúdo original, de simplicidade e de pureza. Aquele pão no meio da mesa foi comparado por aquela criança a uma mãe!
Passado o espanto inicial, percebi que a comparação tinha tanto de inesperado como de lógico e previsível: PÃO é, na essência, a metáfora mais frequentemente usada como alimento, sustento, sobrevivência; MÃE, por seu lado, é das palavras mais amplas de sentidos, desde a simples progenitora, àquela que dá o primeiro alimento, que o faz desde o primeiro dia, no seu próprio útero, e que tradicionalmente assume a tarefa de servir o alimento à sua família! Identificar o pão com a mãe é afinal perceber na essência que a VIDA e o ALIMENTO são concedidos pela mãe!
Ansiando perceber todos os contornos daquela minha fixação com a frase proferida pelo menino, compreendi depois que o motivo do meu encanto quase pueril por uma frase que tinha tanto de ingénuo como de puramente filosófico se prendia sobretudo com uma tradição familiar simples: a de, de tempos a tempos, eu fazer pão, no sentido literal da palavra!
Passo a explicar: gosto de fazer uma fornada de pão à moda antiga, com direito a forno de lenha, a umas “queimadelas” e a umas camadas de cinza nas mãos e nos braços; gosto de pôr uma “masseira” de farinha a levedar e de, no fim, levar uma fornada de pão a fumegar para cima da mesa da cozinha. Há na tarefa de fazer uma fornada de pão um misto de prazer bucólico, cruzado com uma certa vaidade triunfante por saber bulir agilmente o vasculho e a pá do forno. Acresce a tudo isso o efeito anti-stress - útil nos tempos modernos! - que culmina com uma excepcional sensação de vaidade por poder providenciar com as minhas mãos aquele que é considerado um dos alimentos essenciais: o PÃO. É de facto um momento em que me sinto MÃE, aquele em que grito em voz alta para dentro de casa: “Já tirei o pão do forno!” e ao qual se segue um lanche, sempre mais animado do que o usual, com pão quentinho e manteiga a escorrer!
Foi sobretudo por isso que a tal frase proferida pela tal criança me causou tamanha impressão: dizer que aquele pão parecia mesmo uma mãe foi dos maiores e mais inusitados elogios que ouvi fazer a todas as mães!

Célia Lima, in Rodliha, 03/2011

Não são histórias: é mesmo assim!

Antigamente: quadro, ardósia, caderno, livro e lápis! Depois, copiar e decorar. Quem aprendia, aprendia; quem não aprendia, ficava ao fundo da sala, eternamente no mesmo ano, com ou sem orelhas de burro, com ou sem uma dose de reguadas diária. No Inverno, o frio gelado; no Natal, a missa do galo e, com alguma sorte, uma barrigada de filhós e de rabanadas. Era mesmo assim, confirma a minha mãe.
Agora: manuais escolares e respectivos cadernos de actividades, calculadora gráfica, material de escrita e de desenho, dicionários… dúzias e dúzias de materiais e equipamentos, um autêntico escritório de executivo!... E claro, um computador pessoal, vulgo, PC, com ligação à internet. Um pesadelo de despesas para os pais que, num esforço sobre-humano, acedem a todas as exigências das criancinhas, temendo perturbar o seu aproveitamento, caso insistam na aquisição dos cadernos mais baratos ou na partilha do computador de família por todos os elementos da casa. Depois, é esperar pelo sucesso, que nem sempre vem na hora desejada, ou na proporção do investimento económico realizado.
Em Dezembro, os professores queixam-se da inércia dos alunos e os pais, já em ânsias, ripostam com o cansaço dos filhos que, consequentemente, chegam ao Natal “emburrados” e mais exigentes. O PC não basta, o investimento em equipamento adicional tem de continuar: Wii ou PSP, IPod e IPad, TMV topo de gama, entre outros, fazem parte de uma enorme lista de Natal. Em princípio, a criancinha vai ficar mais motivada… Se calhar, vai começar a estudar mais. Esperemos bem que sim!
Nunca houve tanta fartura, dizia o meu avô! E é bem verdade, pensamos nós, embora não o digamos, com medo de dar azar. Quanto à crise: “haja saúde e coza o forno”!

Célia Lima, in Rodilha, 01/2011

Quem deve educar os nossos filhos?

Numa sala de espera, no meio de uma brincadeira um pouco mais enérgica, um irmão pontapeou o outro. Do alto dos seus cerca de oito anos, o ofendido vociferou um “fosca-se” temperado com um “porra” e a plateia continuou distraidamente nas suas leituras ou nas suas conversas, disfarçando a impaciência da espera e o incómodo causado pelo barulho e pelo linguarejar das crianças. O pai das ditas crianças, impávido e sereno, desviou os olhos do TMV e disse ao mais novo que não batesse mais no mais velho e ao mais velho que era bem feito. Quanto às palavras ditas pela criança, nem uma palavra!
Passados uns minutos, curiosa e já mais atenta à conversa, ouvi o pai das crianças dizer à Sra. sentada ao seu lado: “É isto que aprendem agora na escola!”. Fiquei triste, confesso, e também algo confusa. “Terei percebido bem?”, perguntei-me.
Não esperava ver um pai demitir-se assim da sua função de educador, num momento em que deveria ter corrigido os comportamentos dos filhos, e, para além disso, não esperava ouvir um pai “sacudir a chuva do capote”, responsabilizando outros pela falta de educação que os seus filhos revelaram naquele dia, naquele lugar, na sua presença. Concluí o óbvio: aquele pai estava mesmo convicto de não ter qualquer responsabilidade na falta de educação dos filhos.
Depois, lembrei-me, já optimista, que aquela “pequena cena do quotidiano” e aquela reacção paternal não são a regra, são a excepção, por isso evitei pensar mais nela e verifiquei que havia naquela sala mais cinco crianças, animadas e bem-dispostas, que conversavam calmamente com os pais, sem pontapearem ninguém, sem se deitarem no chão e sem dizerem palavrões. Quanto aos seus acompanhantes, pareciam pais e avós conscientes das suas funções de educadores responsáveis.

Célia Lima, in Rodilha, 10/2010

A escola na minha vida

Lembro-me que, quando entrei pela primeira vez na escola, me senti dominada por dois sentimentos: o receio e o encanto. Passo a explicar: sentia-me receosa, pois a professora teimava em ensinar muitas coisas (a ler, a escrever e a fazer contas!) e eu achava que a minha cabeça não ia conseguir guardar tanta informação; por outro lado, estava encantada com o facto de haver um sítio onde eu ia só para aprender coisas novas - a ESCOLA - a minha escola!
Mais tarde, não foi sem espanto que percebi que por trás de cada coisa nova que aprendia havia milhares de outras coisas novas e fantásticas, o que justificava – aparentemente - o facto de termos que andar tantos anos na escola.
Independentemente de tudo, a verdade é que gostava da escola: gostava de aprender e, sobretudo, sentia-me com muita sorte por PODER APRENDER. Saía de casa cedinho, de mala às costas, a limpar os restos de remela mal lavada e a trincar meia carcaça fresquinha, deixada pelo padeiro que passava na rua. Ao fim do dia, quando chegava a casa, gostando mais ou menos desta matéria ou daquele professor, sabia que tinha muita sorte por poder ANDAR NA ESCOLA. Sabia que era ali que podia APRENDER e que havia pessoas cuja principal função era ENSINAR!
O tempo foi passando, fui fazendo as minhas opções, construindo o meu projecto de vida, consciente de que, nesse caminho, a escola poderia ser a minha maior aliada. E assim foi. Tive a sorte de ter pais e professores que me explicaram que tudo o que aprendesse faria parte de mim e me ajudaria a formar como pessoa, não só em termos profissionais mais também em termos pessoais e familiares. Sei que a pessoa que sou hoje é diferente daquela que seria se não tivesse aproveitado todos os ensinamentos que a escola me deu, todos mesmo, até aqueles que julgava não me fazerem falta.
“Aprende que para ti será”; “Olha que o saber não ocupa lugar!”: não me lembro quem foi que me disse isto pela primeira vez. Ouvi-o vezes sem conta e já o disse outras tantas. Digo-o aos meus alunos e às minhas filhas. Acredito na ESCOLA e na missão dos PROFESSORES! Sinto-me feliz por ter a missão de ENSINAR e acredito que é uma sorte podermos dedicar uma parte da nossa vida a APRENDER. Sinto-me feliz por poder dizê-lo assim, publicamente, e tenho a sorte de o poder provar todos os dias na minha vida!

Célia Lima
in Rodliha, 07/2010