Falar
é tão fácil. Desfechar os lábios e proferir sons com sentido, de preferência
palavras simpáticas. Dizer o que querem ouvir, porque é cada vez mais difícil
dizer outra coisa.
Dizer
assim, apenas por dizer, é como ver as ondas que chegam à praia muito devagar,
muito baixinhas, apenas um leve ondular ténue. As palavras melosas são
ondulações leves num mar imenso e perigoso, mas que naquele momento está disfarçado
por trás de sorrisos delicados. E as palavras ditas assim aparecem muito devagar,
por vezes frouxas, disfarçando enganos, criando a ilusão de que nada de grave
pode acontecer.
E
todos nos habituámos a estas palavras: tudo tem que ser doce e calmo,
simpático, inofensivo, disfarçado, maquilhado de simpatias, de cortesias, de delicadezas
e de leves sorrisos encantadores. Nada de palavras fortes, enérgicas, genuínas,
verídicas, saídas das profundezas das crenças. Nada disso! Seria demasiado
cruel, com franqueza, mesmo que sinceras.
Assim,
as palavras estão lá, à espera, inquietas como marés que não podem deixar de
existir, que são essência do mar e de nós próprios. Mas não devem ser ditas,
não vão elas criar ondas mais fortes, capazes de criar remoinhos inesperados.
Que indelicado que seria!
Dizer
aquilo em que realmente se acredita criaria essas vagas mais fortes, bandeiras
que não podem estar sempre verdes, tardes que não podem ser sempre serenas.
Se
calhar, já vos aconteceu. Quando falamos, nem sempre nos lembramos de escolher
palavras pequeninas, com pouca força e, no fim, ficamos com a sensação de que
estragámos toda a felicidade do momento, melindrámos cortesias delicadas, retirámos
beleza àquele cenário tão lindo que nos foi apresentado.
Por
isso, por não querermos ser ondas do mar, decidimos que o melhor será proferir
palavras que não digam nada, palavras ocas, que depois de espremidas,
pressionadas, coagidas ou questionadas, não digam mesmo nada.
Nesse
dia, tudo estará bem, porque nada será dito, mesmo nada.
Quando
as palavras já não disserem nada…