terça-feira, 27 de março de 2012

Quando as palavras já não disserem nada

Falar é tão fácil. Desfechar os lábios e proferir sons com sentido, de preferência palavras simpáticas. Dizer o que querem ouvir, porque é cada vez mais difícil dizer outra coisa.

Dizer assim, apenas por dizer, é como ver as ondas que chegam à praia muito devagar, muito baixinhas, apenas um leve ondular ténue. As palavras melosas são ondulações leves num mar imenso e perigoso, mas que naquele momento está disfarçado por trás de sorrisos delicados. E as palavras ditas assim aparecem muito devagar, por vezes frouxas, disfarçando enganos, criando a ilusão de que nada de grave pode acontecer.

E todos nos habituámos a estas palavras: tudo tem que ser doce e calmo, simpático, inofensivo, disfarçado, maquilhado de simpatias, de cortesias, de delicadezas e de leves sorrisos encantadores. Nada de palavras fortes, enérgicas, genuínas, verídicas, saídas das profundezas das crenças. Nada disso! Seria demasiado cruel, com franqueza, mesmo que sinceras.

Assim, as palavras estão lá, à espera, inquietas como marés que não podem deixar de existir, que são essência do mar e de nós próprios. Mas não devem ser ditas, não vão elas criar ondas mais fortes, capazes de criar remoinhos inesperados. Que indelicado que seria!

Dizer aquilo em que realmente se acredita criaria essas vagas mais fortes, bandeiras que não podem estar sempre verdes, tardes que não podem ser sempre serenas.

Se calhar, já vos aconteceu. Quando falamos, nem sempre nos lembramos de escolher palavras pequeninas, com pouca força e, no fim, ficamos com a sensação de que estragámos toda a felicidade do momento, melindrámos cortesias delicadas, retirámos beleza àquele cenário tão lindo que nos foi apresentado.

Por isso, por não querermos ser ondas do mar, decidimos que o melhor será proferir palavras que não digam nada, palavras ocas, que depois de espremidas, pressionadas, coagidas ou questionadas, não digam mesmo nada.

Nesse dia, tudo estará bem, porque nada será dito, mesmo nada.

Quando as palavras já não disserem nada…

segunda-feira, 12 de março de 2012

Da porta para dentro


Entrou na sala de aula, atrasado, ainda a terminar uma conversa de corredor. Escolheu o caminho mais longo, deu um safanão na cadeira, olhou para o fundo da sala, jogou a mala para cima da mesa, foi até lá atrás, tirou o estojo ao colega, veio para a sua mesa. Já quase todos estavam sentados, menos ele. E outros que chegaram, entretanto.
A professora espera, tenta iniciar a aula, ditar o sumário, acalmar as tropas.
 - Senta-te, por favor! Estou à espera, para começar!- disse-lhe várias vezes, numa calma treinada, a calma de quem sabe que, de outra maneira, nada se consegue.
- Já vai, stôra! Tenha calma!- respondeu com a impaciência de sempre, com ar contrariado e insolente.
Os outros observam: uns à espera, para ver no que dá; outros numa agitação de quem nunca aprendeu a ser de outra forma.
Parece mentira! A aula ainda não começou. Este é, talvez, um dos momentos mais difíceis - tentar começar.
Finalmente sentou-se, mas não abriu a mala, não tirou o material… e a professora ditou o sumário com ar calmo, mas a ver tudo, a perceber que aquela ia ser uma aula dura, que naquele dia ele não vinha bem. Mais três ou quatro sem escrever e a professora a pôr notas no quadro, para ver se o ambiente acalmava e se conseguia pôr o grupo todo concentrado.
E o estojo a abrir-se, o caderno a ser atirado à bruta para cima da mesa. Levantou-se, cantou, sentou-se, escorregou pela cadeira, fingiu escrever… mas nada! Ainda nada.
E a professora atenta, a fazer-lhe sinais para se despachar, a dizer-lhe que não cantasse, que não assobiasse, que ouvisse, que a aula ia ser interessante, que sabia que ele até gostava de ali estar, não sabia é que gostava.
Daí a pouco, um momento de silêncio, e a aula a começar lentamente, de mansinho, pé ante pé, um fio condutor que se quer manter, o esforço da jornada que se adivinha difícil, a satisfação pela curiosidade fugaz que se lê nalguns olhares…
Depois, quando parece que tudo está a melhorar, a bolsa pelo ar, a conversa em voz alta, o assobio, a provocação inesperada, a vontade de ser mandado para a rua, o olhar de quem não tem nada a perder, de quem não tem nada que possa perder, porque, de repente, se lembrou que nada parece valer a pena.
“Que pena!”- pensa a professora.
É necessário avisar várias vezes, ser cuidadosa com as palavras, dar novas oportunidades de forma metódica e ponderada. Pelo meio, muitos intervalos, tentativas pouco frutíferas de acalmar o ambiente que alguns teimam em agitar, esforços esgotados para concentrar todas as atenções naquele fio condutor que deve presidir a todos os momentos da vida.
Mas é um dia difícil e a vontade de alguns parece ser não estar ali, não ouvir, não nada! Olha-se e vêem-se olhos cansados e alguns rostos singulares. Disfarces de euforia encobrem vidas que devem ser estranhas. Palavras bravias, atos violentos…Crianças disfarçada de gigantes. Assustador, por vezes.
Mas a aula tem que continuar. Todos têm o direito de aprender alguma coisa.
- Sendo assim, tens que sair. – ouve-se finalmente na sala.
- O que é que eu fiz? – perguntou, com ar ameaçador, à professora.
- Não sabes? – perguntou-lhe ela, com ar cansado. – No final da aula falamos.
E o olhar dos outros, cansados também, mas sem o dizerem. A falta de paz, a falta de sossego, a falta de silêncio. O estrondo da porta, ao sair.
Ainda faltam uns minutos. A turma tem o direito de aprender mais alguma coisa naquele dia.


Célia Lima, Março de 2012