quinta-feira, 16 de maio de 2013

A escola, um assunto muito sério!


Falar de escola parece ter-se tornado um assunto demasiado corriqueiro, com todos a dizerem o que dela pensam, mesmo que pouco ou nada saibam da mesma.
Muitas vezes, aquilo que se diz sobre a escola, consciente ou inconscientemente, pode abalar de forma inexorável a seriedade daquilo que ela sempre foi, é, e espero continue a ser: a segunda casa das crianças e dos jovens; a instituição responsável pela sua formação, onde passarão grande parte da sua vida, até finalmente estarem aptos a entrar no mercado de trabalho; o lugar onde aprenderão a diferença entre colegas e amigos; onde conhecerão dezenas de professores e de auxiliares que dedicam as suas vidas a ensinar e a educar, e que acreditam ser responsáveis pela formação de uma sociedade melhor, que tentam fazê-lo da melhor maneira que sabem e, sobretudo, da melhor maneira que lhes é possível. Esta é a realidade! Diminuir a importância da escola com discursos sobre inadaptação à realidade, ou com tentativas de desautorização do sistema educativo, sorrateiramente disfarçadas sob pretextos ligados aos desajustes do ensino, da aprendizagem e até da avaliação, passando pela crítica desenfreada a todo e qualquer professor que se sinta – que ousadia! - no direito de ensinar e de exigir é dizer a todos os jovens que a escola não interessa, que o “saber” não faz falta e que bom mesmo é não fazer nada. E isto, meus senhores, eu não aceito, nem como mãe, nem como professora, nem como ex-aluna.
 Andava eu à volta com estes e muitos outros pensamentos, quando decidi auscultar mais uma vez a minha filha mais nova, que entretanto entrará no primeiro ciclo. Foi uma conversa longa, uma recolha de frases dispersas, mas cheias de sentido, repleta de entusiasmo e de boas intenções, plena de sonhos. Foram palavras de uma criança que acredita na escola, que acredita que é importante aprender.
As suas palavras, que tentarei reproduzir com o máximo de rigor possível, são para mim um dos mais belos, inocentes e puros testemunhos de motivação para a escola que alguma vez ouvi.

 Ainda não ando na escola dos grandes, ando só na pré, mas estou muito entusiasmada com a entrada no primeiro ano, que vai ser já em setembro.
Já me disseste que, no verão, temos que preparar tudo para a escola: comprar livros, cadernos, canetas, lápis e muitas coisas mais. Ah, e uma mala nova, das grandes. É que, quando eu estiver na escola primária, não posso levar só a lancheira.
Estou um bocadinho preocupada, pois, se calhar, não vou poder levar brinquedos para a sala de aula, mas talvez possa brincar com eles no intervalo.
Lembras-te, no outro dia, quando me explicaste isto tudo, mãe? Naquele dia em que eu levei quatro peluches para a pré. “Ena, um braçado de peluches!”, disseste. Explicaste-me que esperavas bem que quando eu fosse para a primária não pensasse em levar o Winnie, a Pandora e os outros todos. Já pensei para mim mesma que posso sempre levar uns brinquedos mais pequenos, escondidos na mochila. As manas faziam isso, pois faziam?
Começo a andar muito animada com a ida para a primária. Na minha escola, a minha professora já começou a dizer: “Despachem-se, se não, não conseguem acabar os trabalhos!”. Eu acho que temos que ter tudo em ordem para ter boas notas no final deste ano. Eu e todos os meninos que vão para a primária andamos atarefadíssimos! Será que passamos todos de ano? Espero bem que sim! Eu cá tenho os desenhos todos prontinhos e faço as fichas todas. Penso que vou ter boas notas, mas não tenho bem a certeza. Espero bem que sim.
Tenho a certeza que na escola primária vou ter que trabalhar muito. Vou fazer muitas fichas e vou aprender muitas coisas: os números, as letras, as contas, ler, escrever…
Nos intervalos, vou para o recreio, correr, saltar e brincar com os meus amigos. Vamos para o baloiço e para o escorrega e brincamos sem parar!
 As manas disseram-me que, se calhar, vou ter uma professora de inglês e uma professora de educação física, no final da tarde. Estou muito curiosa para ver como é!
As manas, que andam na escola há muitos anos, disseram-me que é muito importante estudar muito e ser boa aluna. Só assim poderei conhecer melhor o mundo que me rodeia e poderei tornar-me autónoma. Gosto muito desta palavra: “autónoma”. Aprendi-a quando era mais pequena. Tem a ver com saber fazer as coisas sozinha. Acho que, sempre que somos um bocadinho autónomos, ficamos maiores. E eu quero ser grande, como as manas.
Estou deserta para começar a primária!

A conversa foi, como sempre, longa. Pelo meio, disse-lhe que sim, que a escola era muito importante e que tinha a certeza que ela ia ser uma boa aluna, mas que era importante estudar muito, ser obediente e ser uma menina muito atenta a tudo o que a rodeava. Riu-se com os olhos, como costuma fazer sempre que me quer agradar, e foi a correr para a rua, andar de bicicleta e apanhar caracóis.
Esta é uma das nossas crianças, uma criança como tantas outras, a falar da escola com grandes expectativas. Não a podemos dececionar.


Célia Lima, maio de 2013