sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Passeios, torres de Lego e outras heranças


Haviam almoçado cedo – em casa, claro – e não saíram sem antes ter enchido o porta-luvas do carro com garrafas de água e com os pacotes de biscoitos e de bolachas do costume.
Cumprira-se, pois, o prometido: um passeio em família! Não muito longe, evidentemente. Uma coisa simples e barata, de preferência a fugir às portagens e aos pórticos das modernas, múltiplas mas dispendiosas autoestradas da nação.
Com o almoço “no papo” e o lanche “no saco”, gasóleo no automóvel, lá foram e de lá voltaram, sempre de olho vivo, não fosse alguma brigada estar à espreita, escondida por trás de alguma sebe. Todos alerta, atentos a qualquer vulto camuflado sobretudo nas descidas, ou à saída de algum lugarejo. O risco era pequeno, pois o pai conduzia devagar, mas ultimamente eles andavam cegos, com os radares “afinadíssimos”, diziam alguns; escondidos à socapa, garantiam outros; com ordem para multar ao mínimo deslize, comentavam os próprios em conversas de café.
- A malta cai toda que nem tordos, portanto, nunca arriscando.- lembrou o chefe de família.
 E, pelo sim, pelo não, a mãe e as crianças, com olhar de lince, confirmavam velocidades e desfaziam dúvidas sobre eventuais carros à civil estrategicamente estacionados à beira das estradas, atrás de lombas, debaixo das passagens superiores, a meio das rotundas… Valia tudo, mesmo tudo!
- Olha ali, parece um radar!
 - Cuidado, pai, vais a 54 km/h e está um carro atrás daquele arbusto.
Falso alarme! Ainda bem.
Tinha sido uma tarde divertida, mas bastante cansativa: evitar as compras (shoppings, cafés, pastelarias, cinemas, roupas novas, sapatos, livros, “olha aquele jogo novo para a PS!”, “As minhas sapatilhas estão a começar a romper-se.”, “Posso comer um gelado?”…). Não fazer compras, evitar o cafezinho e o geladinho, controlar o consumo do automóvel – “já gastámos um quarto de depósito!”, “mais vinte e cinco euros para a corda do sino!”.
 Que canseira!
Olhos fixos na estrada, pensamentos ocultos, palavras que ficam por dizer, lamentos calados.
Mas é tudo tão bonito, tão moderno, tão “à frente”!
E autoestradas vazias, estádios às moscas, shoppings e restaurantes de luxo. Belas pousadas, fantásticos Museus. “Uma oferta cultural invejável!”, dizem-nos na televisão, e nós acreditamos. “Um destino turístico a repetir!”, confirmam os turistas com belos sorrisos, num inglês que nos esforçamos por decifrar!
 - Se eu vivesse num país desenvolvido, também vinha passar férias a Portugal, pai. E havia de conhecer bem o nosso país. – dissera uma vez um dos miúdos.
De repente, o silêncio é interrompido:
- Quando chegar a casa, vou fazer a maior torre de Legos do mundo, e não é preciso gastar dinheiro! - Disse com ar convincente a mais pequena - Que sorte que eu tenho por ter herdado os Legos dos manos. – Acrescentou.
Ninguém comentou. Ninguém disse nada. Os olhos cruzaram-se, mas apenas isso.
E a crise a teimar, nas notícias, à noite.
E a maior torre de Legos do mundo, em cima da mesinha da sala.
- Que bonito, filha!
Os Legos herdados dos irmãos. As dívidas herdadas, feitas não se sabe por quem.
Crianças sem culpa, famílias confusas. Dão ainda alguns passeios, às vezes.
Que lindo que é o nosso país!

Célia Lima, outubro de 2013