sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Leituras à lareira

          Em casa do meu avô da Moita do Boi, liam-se sobretudo três coisas: o livro de leitura da terceira classe, o “Borda D'Água” e o “Amigo do Povo”. E esta era a sua biblioteca, da qual falava como se de um tesouro se tratasse!

O velho livro da primária, guardado durante mais de sessenta anos, estava trancado a sete chaves na cantareira da sala e só me lembro de lhe poder tocar - com autorização especial do meu avô e debaixo dos seus olhos ciosos - num ou noutro dia em que ele estivesse especialmente bem-disposto ou em que lembrasse com orgulho inchado o seu diploma da terceira classe.

O “Borda D’Água” era a enciclopédia da casa. Apresentava um reportório vastíssimo de informações diversas, desde as fases da lua aos eclipses e marés, com dicas sobre astrologia, agricultura, jardinagem…Este almanaque era muito melhor do que o boletim meteorológico da TVI, com a vantagem de me ter iniciado no contacto com o mundo da publicidade através do famoso anúncio ao pulverizador LENA, a máquina de sulfatar que alegrava quem a comprasse e entristecia quem a não tivesse. Vi o meu avô folhear mil vezes o famoso almanaque já amarelado do tempo e do fumo da lareira. Até a minha avó olhava para aquelas folhas, com ar atento e inquiridor, apesar de não saber ler uma única linha!

 Da peculiar biblioteca, o que recordo mais vivamente são os momentos dedicados ao último elemento da lista, o ilustre “Amigo do Povo”, afamado jornal semanal que o meu avô tirava com ar solene do velho armário embutido sobre a lareira e cuja leitura fazia questão de partilhar com os netos. À medida que íamos aprendendo a ler, pedia-nos para lermos - à vez e em voz alta! - as notícias e os temas diversos ou então a velha rubrica “À Sombra do Castanheiro”. E assim nos entretínhamos uns aos outros, enquanto a minha avó abria um saco de biscoitos ou tirava da seira os bolitos comprados à vendedeira, de manhã, no mercado. Depois, acabávamos sempre na secção recreativa, de volta das adivinhas e a resolver charadas combinadas.

Passaram mais de trinta anos! E ainda me vejo, sob o olhar atento e magistral do meu avô, a ler as notícias da terra, no banquito da lareira, nos fins de tarde de domingo.

Há pouco, ao calor de uma outra lareira, dei por mim a ler o “Rodilha”, enquanto recordava velhas memórias, e confirmei mais uma vez que são as coisas simples da vida que constituem a nossa verdadeira essência.


Célia Lima