O velho livro
da primária, guardado durante mais de sessenta anos, estava trancado a sete
chaves na cantareira da sala e só me lembro de lhe poder tocar - com
autorização especial do meu avô e debaixo dos seus olhos ciosos - num ou noutro
dia em que ele estivesse especialmente bem-disposto ou em que lembrasse com
orgulho inchado o seu diploma da terceira classe.
O “Borda D’Água”
era a enciclopédia da casa. Apresentava um reportório vastíssimo de informações
diversas, desde as fases da lua aos eclipses
e marés, com dicas sobre astrologia, agricultura, jardinagem…Este almanaque era
muito melhor do que o boletim meteorológico da TVI, com a vantagem de me
ter iniciado no contacto com o mundo da publicidade através do famoso anúncio
ao pulverizador LENA, a máquina de sulfatar que alegrava quem a comprasse e
entristecia quem a não tivesse. Vi o meu avô folhear mil vezes o famoso
almanaque já amarelado do tempo e do fumo da lareira. Até a minha avó olhava
para aquelas folhas, com ar atento e inquiridor, apesar de não saber ler uma
única linha!
Da peculiar biblioteca, o que recordo mais
vivamente são os momentos dedicados ao último elemento da lista, o ilustre
“Amigo do Povo”, afamado jornal semanal que o meu avô tirava com ar solene do
velho armário embutido sobre a lareira e cuja leitura fazia questão de partilhar
com os netos. À medida que íamos aprendendo a ler, pedia-nos para lermos - à
vez e em voz alta! - as notícias e os temas diversos ou então a velha rubrica
“À Sombra do Castanheiro”. E assim nos entretínhamos uns aos outros, enquanto a
minha avó abria um saco de biscoitos ou tirava da seira os bolitos comprados à
vendedeira, de manhã, no mercado. Depois, acabávamos sempre na secção
recreativa, de volta das adivinhas e a resolver charadas combinadas.
Passaram mais
de trinta anos! E ainda me vejo, sob o olhar atento e magistral do meu avô, a ler
as notícias da terra, no banquito da lareira, nos fins de tarde de domingo.
Há pouco, ao
calor de uma outra lareira, dei por mim a ler o “Rodilha”, enquanto recordava
velhas memórias, e confirmei mais uma vez que são as coisas simples da vida que
constituem a nossa verdadeira essência.