Se
tivesse um diário, escreveria que cheguei a casa há poucos minutos, com aquela
sensação que sentimos às vezes no fim de uma semana de trabalho, uma mistura de
cansaço com o doce prazer de estar às portas de mais um serão em família ou de
mais um fim de semana. Faria uma rápida análise da minha semana especialmente
cheia e cansativa: muitas horas de aula, recheadas com reuniões, atas, horas ao
computador, muitos papéis (demasiados), mas uma semana boa, apesar de ter
andado afónica durante a maior parte dos dias. Falaria da sensação de se gostar
do que se faz, de se estar bem com a vida que se tem. Contaria que hoje, por
exemplo, quando entrei numa turma, fui surpreendida com a pergunta inesperada
de um aluno que raramente me dirige a palavra: “Então, professora, está melhor?
Foi ao médico?”. Julgo que ele nunca tinha falado comigo, e logo hoje que eu
não falava!
Não
me estragou a semana ficar doente, muito menos ver fotografias de um tal Sócrates
a passear-se por Paris, a gastar as sobras daquilo a que alguém já chamou “a
festa socialista”, a sorrir e a acenar, imune e intocável. Não me perturbou a
notícia ridícula de um ex-secretário de Estado que precisa da ajuda dos pais
para sobreviver. Tudo isso me entristeceu, talvez até me tenha irritado
momentaneamente, mas não mais do que isso.
A
verdade é que foi uma semana boa, apesar da minha afonia e da verborreia dos
políticos e do governo, apesar da novela à volta de um orçamento de Estado que
vai entrar, mais uma vez, bem dentro da minha casa e que abalará
inequivocamente a logística da minha gestão familiar.
Apesar
de estar triste com muita coisa (sobretudo preocupada), apesar da minha
consciência nem sempre me deixar descansar, aqui estou a cantarolar mentalmente
o famoso refrão “É sexta-feira!”,
enquanto espero pelo resto da família para em conjunto iniciarmos um fim
de semana simples e descontraído.
Se tivesse um diário, hoje escreveria nele
coisas simples, simples e tolas, e lembrar-me-ia, mais uma vez, que a melhor coisa da vida é vivê-la!