segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Se eu tivesse um diário...

          O momento em que escrevemos num diário é semelhante àquele em que nos miramos num espelho, mas feito de palavras. Escrever um diário dá-nos a oportunidade de “fixar” por escrito as nossas vivências mais importantes e mais ou menos costumeiras numa narrativa da qual, no dia-a-dia, nem sempre nos sentimos protagonistas. Ao mesmo tempo, permite-nos perceber que somos a essência e a identidade de um ser, que somos responsáveis por uma oportunidade de vida, por um EU, ao qual nem sempre damos a devida atenção. Desabafar o nosso rol de alegrias e de tristezas, exteriorizar os nossos pensamentos mais íntimos, as emoções e os sentimentos que nem sempre conseguimos partilhar com outra pessoa, permite-nos pesar sentimentos e emoções, arrumar gavetas no nosso coração e na nossa mente, ou então perceber que nem tudo pode estar sempre arrumado e organizado e que a beleza da vida também passa por isso.
Se tivesse um diário, escreveria que cheguei a casa há poucos minutos, com aquela sensação que sentimos às vezes no fim de uma semana de trabalho, uma mistura de cansaço com o doce prazer de estar às portas de mais um serão em família ou de mais um fim de semana. Faria uma rápida análise da minha semana especialmente cheia e cansativa: muitas horas de aula, recheadas com reuniões, atas, horas ao computador, muitos papéis (demasiados), mas uma semana boa, apesar de ter andado afónica durante a maior parte dos dias. Falaria da sensação de se gostar do que se faz, de se estar bem com a vida que se tem. Contaria que hoje, por exemplo, quando entrei numa turma, fui surpreendida com a pergunta inesperada de um aluno que raramente me dirige a palavra: “Então, professora, está melhor? Foi ao médico?”. Julgo que ele nunca tinha falado comigo, e logo hoje que eu não falava!
Não me estragou a semana ficar doente, muito menos ver fotografias de um tal Sócrates a passear-se por Paris, a gastar as sobras daquilo a que alguém já chamou “a festa socialista”, a sorrir e a acenar, imune e intocável. Não me perturbou a notícia ridícula de um ex-secretário de Estado que precisa da ajuda dos pais para sobreviver. Tudo isso me entristeceu, talvez até me tenha irritado momentaneamente, mas não mais do que isso.
A verdade é que foi uma semana boa, apesar da minha afonia e da verborreia dos políticos e do governo, apesar da novela à volta de um orçamento de Estado que vai entrar, mais uma vez, bem dentro da minha casa e que abalará inequivocamente a logística da minha gestão familiar.
Apesar de estar triste com muita coisa (sobretudo preocupada), apesar da minha consciência nem sempre me deixar descansar, aqui estou a cantarolar mentalmente o famoso refrão “É sexta-feira!”,  enquanto espero pelo resto da família para em conjunto iniciarmos um fim de semana simples e descontraído.
 Se tivesse um diário, hoje escreveria nele coisas simples, simples e tolas, e lembrar-me-ia, mais uma vez, que a melhor coisa da vida é vivê-la!

Célia Lima, novembro de 2012