quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ser Mãe


Em pequena, ouvia as minhas avós contarem que “pariram” os filhos agarradas à trave da lareira e ficava a olhar para elas, incrédula e assustada. Era impossível! Como é que alguém se podia submeter a um tal esforço? De pé, agarradas à trave da lareira?!
Quando engravidei da minha primeira filha, dediquei algum tempo a pensar (e até a sonhar!) com o parto. Imaginava-o de mil maneiras, normalmente cheia de medo, confesso, mas sempre com o aconchego mental de que já não vivia no tempo das minhas avós. Sabia que iria ter a minha bebé com o máximo de assistência médica possível, reduzindo assim - imaginava eu - a probabilidade de sofrimento a que poderia estar sujeita em termos físicos.
O tempo foi passando, e eu evitava pensar muito no assunto, embora por dentro estivesse em pânico, “morta de medo”, sentindo muitas vezes que o meu corpo não seria capaz de dar passagem ao bebé, de o deixar nascer naturalmente.
Foi mais ou menos isso que aconteceu, de facto. Confirmei que era uma “má parideira” e que sozinha nunca colocaria nenhum filho no mundo, com ou sem trave de lareira, com ou sem a ajuda e a coragem transmitidas pelas mulheres antigas. Agradeci aos deuses ser destes tempos, ter hospitais, médicos, enfermeiras, anestesistas… Até agradeci à bruta da enfermeira que me apertou a barriga com toda a força. Sem ela, a minha filha não teria nascido. Sem toda a parafernália da saúde moderna, eu teria morrido, provavelmente caída sob a trave da lareira, depois de gritos surdos e prantos inúteis.
É pois meu propósito confessar publicamente a minha total e inquestionável incompetência como parturiente! Assumo-o diante de todos. E arranjo testemunhas variadas que o confirmam, para vergonha minha. Apesar disso, submeti-me três vezes à mesma experiência, cada vez mais traumatizada, cada vez mais dececionada com o meu desempenho na hora de ajudar as minhas filhas a nascerem. Mas nasceram, com muita ajuda, é certo, mas nasceram.
Passada a experiência de cada um dos partos – cada um mais traumático do que o anterior, diga-se em abono da verdade – era contudo automática a perceção de que tinha sido mais uma vez abençoada, verdadeiramente abençoada. Entrava no hospital sozinha, mas regressava a casa com mais um ser, mais uma filha, que se gerara no meu ventre, nele se tinha formado e dele saíra para o mundo. Sentia sempre o mesmo: nascia um novo ser, fruto do amor de duas pessoas, fonte de esperança, símbolo de felicidade!
Percebi em cada um desses dias o que significava “dar à luz”, senti-o com todos os músculos do meu corpo, em todos os poros do meu ser, senti-o na carne rasgada, que deixava logo de doer, como que por magia.
Estava sempre feliz, imensamente feliz. Sentia-me responsável, útil, importante. Era como se, a partir daquele momento, tudo no mundo tivesse mudado!
Ser mãe foi - e continua a ser ainda hoje - a experiência mais enriquecedora que me foi permitido ter na vida.

Célia Lima, Março de 2013