segunda-feira, 20 de junho de 2011

Quem é que nos tem andado a dar cabo da auto-estima?

Foi com algum espanto que tomei conhecimento do resultado de um estudo recente onde se concluiu que Portugal é o país da Europa onde se trabalha mais horas por dia.
Confrontada com este dado e com o facto aparentemente contraditório da fraca PRODUTIVIDADE que dizem caracterizar-nos a todos (aparentemente sem excepção!), fiz uma rápida pesquisa para tentar perceber os contornos da questão. Comecei por me ver inundada de anedotas e cartoons que nos ridicularizavam a todos, sugerindo que em Portugal se faz de tudo para não trabalhar. Com a auto-estima em baixo e os níveis de confiança a descer vertiginosamente, engoli em seco e continuei. Pouco depois, foi-me explicado, “por A mais B” que, em Portugal, apesar de haver uma ÉTICA do trabalho muito forte, não existe uma ética profissional. Trocado por miúdos, confirmava-se que o TRABALHO é um valor profundamente enraizado na nossa cultura, isto é, o trabalho tem para todos nós uma grande importância, intimamente relacionada com a busca da DIGNIDADE e do RECONHECIMENTO.
Pelos vistos, nós até trabalhamos demasiado, como comprova o facto de grande parte da classe trabalhadora ocupar o seu tempo livre a trabalhar e não a descansar! De facto, em termos de tempo diário de trabalho, nós, Portugueses, ocupamos o terceiro lugar no ranking dos países da OCDE, trabalhando cerca de quarenta e tal minutos por dia a mais do que a média nestes países. Para além disso, trabalhamos aproximadamente quatro horas por dia em actividades familiares e caseiras (em casa, na horta…).
Mas afinal, o que é que se passa connosco? Andamos a “trabalhar para aquecer”? – perguntei-me.
Prossegui as minhas leituras, meio a medo, e percebi que o problema pelos vistos era outro: trabalhar muito não significa trabalhar bem!
Oscilando num misto de orgulho e de embaraço pelo esforço aparentemente inglório de trabalhar sem render que chegue, tropecei inesperadamente na explicação final, e senti uma tristeza genuína, que me acertou de forma tão violenta, como uma calhoada na cabeça. O nosso problema é que, apesar de trabalharmos cerca de quatro horas a mais do que nos outros países, isso de nada nos vale! É que, em Portugal, a CONCORRÊNCIA e o MÉRITO são menos valorizados do que a subserviência - “diz ámen ao teu chefe, nem que ele seja um incompetente” - e a bajulação - a chamada “graxa”. Deste modo, a nossa DINÂMICA e RENTABILIDADE de pouco valerão, se continuarmos a calar injustiças, a trabalhar por nós e pelo colega que anda a fazer “ronha”, a fingir que está tudo bem e que o nosso país está bem entregue, só porque alguém diz coisas bonitas, jurando que tudo vai correr pelo melhor!
Na prática, habituámo-nos a duas coisas: dizer muito mal ou muito bem! Centrámos a nossa atenção na retórica e não nos OBJECTIVOS SÉRIOS. Perdemos a noção do que fazemos e - ironia das ironias - até acreditamos quando alguém nos diz: trabalhas pouco!
Pelos vistos, em Portugal fez-se muita coisa errada, mas quanto a mim e a muita gente que conheço e admiro, duma coisa tenho a certeza: todos aqueles que não têm medo do trabalho e arregaçam as mangas sempre que é necessário, no fim do dia, cansados e muitas vezes mal pagos, não merecem ouvir dizer: “trabalhas muito, mas trabalhas mal!”.
Por isso, a todos os que se limitam a arranjar desculpas e a criticar, podemos dizer: “Orientem-se e orientem-nos! Saibam gerir e rentabilizar os recursos que temos e, já agora, arregacem as mangas também e venham trabalhar!”.

Célia Lima, in Rodilha, 06/2011

À mesa e em família: a história do pão que parecia uma mãe

Num artigo que li, um psicanalista contava um episódio interessante de uma criança que, ao chegar a uma casa onde estava um enorme pão branco no centro de uma mesa, terá dito: “Olha, parece uma mãe!”.
Há já algum tempo que não me acontecia ler uma frase tão pequena, tão inesperada, mas ao mesmo tempo tão fantástica, porque plena de conteúdo original, de simplicidade e de pureza. Aquele pão no meio da mesa foi comparado por aquela criança a uma mãe!
Passado o espanto inicial, percebi que a comparação tinha tanto de inesperado como de lógico e previsível: PÃO é, na essência, a metáfora mais frequentemente usada como alimento, sustento, sobrevivência; MÃE, por seu lado, é das palavras mais amplas de sentidos, desde a simples progenitora, àquela que dá o primeiro alimento, que o faz desde o primeiro dia, no seu próprio útero, e que tradicionalmente assume a tarefa de servir o alimento à sua família! Identificar o pão com a mãe é afinal perceber na essência que a VIDA e o ALIMENTO são concedidos pela mãe!
Ansiando perceber todos os contornos daquela minha fixação com a frase proferida pelo menino, compreendi depois que o motivo do meu encanto quase pueril por uma frase que tinha tanto de ingénuo como de puramente filosófico se prendia sobretudo com uma tradição familiar simples: a de, de tempos a tempos, eu fazer pão, no sentido literal da palavra!
Passo a explicar: gosto de fazer uma fornada de pão à moda antiga, com direito a forno de lenha, a umas “queimadelas” e a umas camadas de cinza nas mãos e nos braços; gosto de pôr uma “masseira” de farinha a levedar e de, no fim, levar uma fornada de pão a fumegar para cima da mesa da cozinha. Há na tarefa de fazer uma fornada de pão um misto de prazer bucólico, cruzado com uma certa vaidade triunfante por saber bulir agilmente o vasculho e a pá do forno. Acresce a tudo isso o efeito anti-stress - útil nos tempos modernos! - que culmina com uma excepcional sensação de vaidade por poder providenciar com as minhas mãos aquele que é considerado um dos alimentos essenciais: o PÃO. É de facto um momento em que me sinto MÃE, aquele em que grito em voz alta para dentro de casa: “Já tirei o pão do forno!” e ao qual se segue um lanche, sempre mais animado do que o usual, com pão quentinho e manteiga a escorrer!
Foi sobretudo por isso que a tal frase proferida pela tal criança me causou tamanha impressão: dizer que aquele pão parecia mesmo uma mãe foi dos maiores e mais inusitados elogios que ouvi fazer a todas as mães!

Célia Lima, in Rodliha, 03/2011

Não são histórias: é mesmo assim!

Antigamente: quadro, ardósia, caderno, livro e lápis! Depois, copiar e decorar. Quem aprendia, aprendia; quem não aprendia, ficava ao fundo da sala, eternamente no mesmo ano, com ou sem orelhas de burro, com ou sem uma dose de reguadas diária. No Inverno, o frio gelado; no Natal, a missa do galo e, com alguma sorte, uma barrigada de filhós e de rabanadas. Era mesmo assim, confirma a minha mãe.
Agora: manuais escolares e respectivos cadernos de actividades, calculadora gráfica, material de escrita e de desenho, dicionários… dúzias e dúzias de materiais e equipamentos, um autêntico escritório de executivo!... E claro, um computador pessoal, vulgo, PC, com ligação à internet. Um pesadelo de despesas para os pais que, num esforço sobre-humano, acedem a todas as exigências das criancinhas, temendo perturbar o seu aproveitamento, caso insistam na aquisição dos cadernos mais baratos ou na partilha do computador de família por todos os elementos da casa. Depois, é esperar pelo sucesso, que nem sempre vem na hora desejada, ou na proporção do investimento económico realizado.
Em Dezembro, os professores queixam-se da inércia dos alunos e os pais, já em ânsias, ripostam com o cansaço dos filhos que, consequentemente, chegam ao Natal “emburrados” e mais exigentes. O PC não basta, o investimento em equipamento adicional tem de continuar: Wii ou PSP, IPod e IPad, TMV topo de gama, entre outros, fazem parte de uma enorme lista de Natal. Em princípio, a criancinha vai ficar mais motivada… Se calhar, vai começar a estudar mais. Esperemos bem que sim!
Nunca houve tanta fartura, dizia o meu avô! E é bem verdade, pensamos nós, embora não o digamos, com medo de dar azar. Quanto à crise: “haja saúde e coza o forno”!

Célia Lima, in Rodilha, 01/2011

Quem deve educar os nossos filhos?

Numa sala de espera, no meio de uma brincadeira um pouco mais enérgica, um irmão pontapeou o outro. Do alto dos seus cerca de oito anos, o ofendido vociferou um “fosca-se” temperado com um “porra” e a plateia continuou distraidamente nas suas leituras ou nas suas conversas, disfarçando a impaciência da espera e o incómodo causado pelo barulho e pelo linguarejar das crianças. O pai das ditas crianças, impávido e sereno, desviou os olhos do TMV e disse ao mais novo que não batesse mais no mais velho e ao mais velho que era bem feito. Quanto às palavras ditas pela criança, nem uma palavra!
Passados uns minutos, curiosa e já mais atenta à conversa, ouvi o pai das crianças dizer à Sra. sentada ao seu lado: “É isto que aprendem agora na escola!”. Fiquei triste, confesso, e também algo confusa. “Terei percebido bem?”, perguntei-me.
Não esperava ver um pai demitir-se assim da sua função de educador, num momento em que deveria ter corrigido os comportamentos dos filhos, e, para além disso, não esperava ouvir um pai “sacudir a chuva do capote”, responsabilizando outros pela falta de educação que os seus filhos revelaram naquele dia, naquele lugar, na sua presença. Concluí o óbvio: aquele pai estava mesmo convicto de não ter qualquer responsabilidade na falta de educação dos filhos.
Depois, lembrei-me, já optimista, que aquela “pequena cena do quotidiano” e aquela reacção paternal não são a regra, são a excepção, por isso evitei pensar mais nela e verifiquei que havia naquela sala mais cinco crianças, animadas e bem-dispostas, que conversavam calmamente com os pais, sem pontapearem ninguém, sem se deitarem no chão e sem dizerem palavrões. Quanto aos seus acompanhantes, pareciam pais e avós conscientes das suas funções de educadores responsáveis.

Célia Lima, in Rodilha, 10/2010

A escola na minha vida

Lembro-me que, quando entrei pela primeira vez na escola, me senti dominada por dois sentimentos: o receio e o encanto. Passo a explicar: sentia-me receosa, pois a professora teimava em ensinar muitas coisas (a ler, a escrever e a fazer contas!) e eu achava que a minha cabeça não ia conseguir guardar tanta informação; por outro lado, estava encantada com o facto de haver um sítio onde eu ia só para aprender coisas novas - a ESCOLA - a minha escola!
Mais tarde, não foi sem espanto que percebi que por trás de cada coisa nova que aprendia havia milhares de outras coisas novas e fantásticas, o que justificava – aparentemente - o facto de termos que andar tantos anos na escola.
Independentemente de tudo, a verdade é que gostava da escola: gostava de aprender e, sobretudo, sentia-me com muita sorte por PODER APRENDER. Saía de casa cedinho, de mala às costas, a limpar os restos de remela mal lavada e a trincar meia carcaça fresquinha, deixada pelo padeiro que passava na rua. Ao fim do dia, quando chegava a casa, gostando mais ou menos desta matéria ou daquele professor, sabia que tinha muita sorte por poder ANDAR NA ESCOLA. Sabia que era ali que podia APRENDER e que havia pessoas cuja principal função era ENSINAR!
O tempo foi passando, fui fazendo as minhas opções, construindo o meu projecto de vida, consciente de que, nesse caminho, a escola poderia ser a minha maior aliada. E assim foi. Tive a sorte de ter pais e professores que me explicaram que tudo o que aprendesse faria parte de mim e me ajudaria a formar como pessoa, não só em termos profissionais mais também em termos pessoais e familiares. Sei que a pessoa que sou hoje é diferente daquela que seria se não tivesse aproveitado todos os ensinamentos que a escola me deu, todos mesmo, até aqueles que julgava não me fazerem falta.
“Aprende que para ti será”; “Olha que o saber não ocupa lugar!”: não me lembro quem foi que me disse isto pela primeira vez. Ouvi-o vezes sem conta e já o disse outras tantas. Digo-o aos meus alunos e às minhas filhas. Acredito na ESCOLA e na missão dos PROFESSORES! Sinto-me feliz por ter a missão de ENSINAR e acredito que é uma sorte podermos dedicar uma parte da nossa vida a APRENDER. Sinto-me feliz por poder dizê-lo assim, publicamente, e tenho a sorte de o poder provar todos os dias na minha vida!

Célia Lima
in Rodliha, 07/2010