Num
destes dias dei por mim a recordar os sábados e
domingos passados em casa dos meus avós, quando havia festas e a louça era
lavada numa bacia com água quente da púcara, misturada com água fria do caneco;
ou quando o meu avô pedia para nós, os netos, lhe lavarmos os pés, sentados num
banquito de madeira, junto à velha lareira; ou quando, correndo riscos
desnecessários para os nossos seis ou sete anos, íamos à capoeira aliviar o
corpo junto das galinhas e dos galos que, quando estávamos acocorados, nos
pareciam maiores do que nós.
Tudo
isso acabou quando os meus avós mandaram fazer a casa de banho! Foi no velho quarto contíguo à cozinha que nasceu a nova casa de banho dos
meus avós, um novo compartimento dotado de equipamento sanitário que permitia
realizar as necessidades fisiológicas e a higiene pessoal, sem correr riscos
desnecessários no galinheiro. Com a nova casa de banho, veio também uma pequena
bancada com um lava-louças, junto ao postigo, e uma caldeira encaixada na velha
lareira, para aquecer a água do banho.
Era
um luxo! Haviam substituído o
candeeiro a petróleo pela luz elétrica e chegava, pouco depois, todo o conforto da água corrente
em casa, através de duas torneiras: uma na cozinha, outra na casa de banho.
Desde esse dia, aumentou exponencialmente o nível do conforto das rotinas diárias dos meus avós. O meu avô e a minha avó deixaram de se lavar na velha bacia, à beira da lareira, e deixaram de aquecer uma púcara de água para misturar com a água fria do caneco. Deixámos de poder lavar os pés do meu avô na bacia, à beira da lareira, é certo, mas já podíamos ir fazer um xixizinho, sem arriscar umas bicadas nas partes íntimas. Tudo mudou, apenas com uma casa de banho, duas torneiras, uma pequena bancada e uma caldeira. Tudo mudou!
Desde esse dia, aumentou exponencialmente o nível do conforto das rotinas diárias dos meus avós. O meu avô e a minha avó deixaram de se lavar na velha bacia, à beira da lareira, e deixaram de aquecer uma púcara de água para misturar com a água fria do caneco. Deixámos de poder lavar os pés do meu avô na bacia, à beira da lareira, é certo, mas já podíamos ir fazer um xixizinho, sem arriscar umas bicadas nas partes íntimas. Tudo mudou, apenas com uma casa de banho, duas torneiras, uma pequena bancada e uma caldeira. Tudo mudou!
Passados tantos anos, lembrei-me da mudança originada, na altura,
por todas aquelas coisas, que são afinal tão simples para nós agora: água na torneira, luz na
cozinha, água quente para o banho, poder usar uma latrina…
Contudo, numa destas semanas, de
modo completamente imprevisível, a fúria da natureza e as suas inevitáveis
consequências fizeram-nos lembrar que não podemos tomar nada como adquirido. Bastou
uma semana sem luz e sem água, uma semana a aquecer água para banhos, a misturá-la num balde, a tomar banho à
moda antiga numa banheira moderna, a cozinhar à lareira ou num bico improvisado, a caminhar
pela casa alumiada por velas ou por um velho candeeiro a petróleo, a lavar roupa
à mão…Que semana! E os recursos ali à frente: eletrodomésticos variados, máquinas
diversas e recursos tecnológicos, inúteis, à espera, inertes…
Depois,
ao sétimo dia fez-se luz! E nós, já abalados na esperança e quase incrédulos, agradecemos
e, sem perder tempo, ligámos luzes, abrimos torneiras, tomámos banhos,
lavámos roupas, aspirámos, cozinhámos, telefonámos, ligámos computadores, fomos
à internet...
E
nesse dia reviveu-se afinal uma experiência em muito semelhante àquela em que
comemorámos, em família, a inauguração da nova casa de banho na velha casa dos
meus avós!
Célia
Lima, fevereiro de 2013