segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

E ao sétimo dia fez-se luz!


Num destes dias dei por mim a recordar  os sábados e domingos passados em casa dos meus avós, quando havia festas e a louça era lavada numa bacia com água quente da púcara, misturada com água fria do caneco; ou quando o meu avô pedia para nós, os netos, lhe lavarmos os pés, sentados num banquito de madeira, junto à velha lareira; ou quando, correndo riscos desnecessários para os nossos seis ou sete anos, íamos à capoeira aliviar o corpo junto das galinhas e dos galos que, quando estávamos acocorados, nos pareciam maiores do que nós.
Tudo isso acabou quando os meus avós mandaram fazer a casa de banho! Foi no velho quarto contíguo à cozinha que nasceu a nova casa de banho dos meus avós, um novo compartimento dotado de equipamento sanitário que permitia realizar as necessidades fisiológicas e a higiene pessoal, sem correr riscos desnecessários no galinheiro. Com a nova casa de banho, veio também uma pequena bancada com um lava-louças, junto ao postigo, e uma caldeira encaixada na velha lareira, para aquecer a água do banho.
Era um luxo! Haviam substituído o candeeiro a petróleo pela luz elétrica e chegava, pouco depois, todo o conforto da água corrente em casa, através de duas torneiras: uma na cozinha, outra na casa de banho.
Desde esse dia, aumentou exponencialmente o nível do conforto das rotinas diárias dos meus avós. O meu avô e a minha avó deixaram de se lavar na velha bacia, à beira da lareira, e deixaram de aquecer uma púcara de água para misturar com a água fria do caneco. Deixámos de poder lavar os pés do meu avô na bacia, à beira da lareira, é certo, mas já podíamos ir fazer um xixizinho, sem arriscar umas bicadas nas partes íntimas. Tudo mudou, apenas com uma casa de banho, duas torneiras, uma pequena bancada e uma caldeira. Tudo mudou!
Passados tantos anos, lembrei-me da mudança originada, na altura, por todas aquelas coisas, que são afinal tão simples para nós agora: água na torneira, luz na cozinha, água quente para o banho, poder usar uma latrina…
Contudo, numa destas semanas, de modo completamente imprevisível, a fúria da natureza e as suas inevitáveis consequências fizeram-nos lembrar que não podemos tomar nada como adquirido. Bastou uma semana sem luz e sem água, uma semana a aquecer água para banhos, a misturá-la num balde, a tomar banho à moda antiga numa banheira moderna, a cozinhar à lareira ou num bico improvisado, a caminhar pela casa alumiada por velas ou por um velho candeeiro a petróleo, a lavar roupa à mão…Que semana! E os recursos ali à frente: eletrodomésticos variados, máquinas diversas e recursos tecnológicos, inúteis, à espera, inertes…
Depois, ao sétimo dia fez-se luz! E nós, já abalados na esperança e quase incrédulos, agradecemos e, sem perder tempo, ligámos luzes, abrimos torneiras, tomámos banhos, lavámos roupas, aspirámos, cozinhámos, telefonámos, ligámos computadores, fomos à internet...
E nesse dia reviveu-se afinal uma experiência em muito semelhante àquela em que comemorámos, em família, a inauguração da nova casa de banho na velha casa dos meus avós!

 
Célia Lima, fevereiro de 2013

 

2 comentários:

  1. Lindo texto!

    Laurinda Leitão.

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  2. Parecem, de facto, banais os objetos que hoje em dia usamos no nosso quotidiano, principalmente para os jovens.
    É sempre desafiador, inclusive para a minha geração, imaginar o modo de vida dos nossos avós e bisavós que nos contam histórias de uma infância pobre, mas feliz, onde não existiam tecnologias ou eletricidade.
    Cumprimentos, Jéssica Santos

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