Entrou na sala
de aula, atrasado, ainda a terminar uma conversa de corredor. Escolheu o
caminho mais longo, deu um safanão na cadeira, olhou para o fundo da sala,
jogou a mala para cima da mesa, foi até lá atrás, tirou o estojo ao colega,
veio para a sua mesa. Já quase todos estavam sentados, menos ele. E outros que
chegaram, entretanto.
A professora espera,
tenta iniciar a aula, ditar o sumário, acalmar as tropas.
- Senta-te, por favor! Estou à espera, para
começar!- disse-lhe várias vezes, numa calma treinada, a calma de quem sabe
que, de outra maneira, nada se consegue.
- Já vai, stôra!
Tenha calma!- respondeu com a impaciência de sempre, com ar contrariado e
insolente.
Os outros
observam: uns à espera, para ver no que dá; outros numa agitação de quem nunca
aprendeu a ser de outra forma.
Parece
mentira! A aula ainda não começou. Este é, talvez, um dos momentos mais
difíceis - tentar começar.
Finalmente
sentou-se, mas não abriu a mala, não tirou o material… e a professora ditou o
sumário com ar calmo, mas a ver tudo, a perceber que aquela ia ser uma aula
dura, que naquele dia ele não vinha bem. Mais três ou quatro sem escrever e a
professora a pôr notas no quadro, para ver se o ambiente acalmava e se
conseguia pôr o grupo todo concentrado.
E o estojo a
abrir-se, o caderno a ser atirado à bruta para cima da mesa. Levantou-se, cantou,
sentou-se, escorregou pela cadeira, fingiu escrever… mas nada! Ainda nada.
E a professora
atenta, a fazer-lhe sinais para se despachar, a dizer-lhe que não cantasse, que
não assobiasse, que ouvisse, que a aula ia ser interessante, que sabia que ele
até gostava de ali estar, não sabia é que gostava.
Daí a pouco, um
momento de silêncio, e a aula a começar lentamente, de mansinho, pé ante pé, um
fio condutor que se quer manter, o esforço da jornada que se adivinha difícil,
a satisfação pela curiosidade fugaz que se lê nalguns olhares…
Depois, quando
parece que tudo está a melhorar, a bolsa pelo ar, a conversa em voz alta, o
assobio, a provocação inesperada, a vontade de ser mandado para a rua, o olhar
de quem não tem nada a perder, de quem não tem nada que possa perder, porque,
de repente, se lembrou que nada parece valer a pena.
“Que pena!”-
pensa a professora.
É necessário
avisar várias vezes, ser cuidadosa com as palavras, dar novas oportunidades de
forma metódica e ponderada. Pelo meio, muitos intervalos, tentativas pouco
frutíferas de acalmar o ambiente que alguns teimam em agitar, esforços
esgotados para concentrar todas as atenções naquele fio condutor que deve
presidir a todos os momentos da vida.
Mas é um dia
difícil e a vontade de alguns parece ser não estar ali, não ouvir, não nada!
Olha-se e vêem-se olhos cansados e alguns rostos singulares. Disfarces de
euforia encobrem vidas que devem ser estranhas. Palavras bravias, atos
violentos…Crianças disfarçada de gigantes. Assustador, por vezes.
Mas a aula tem
que continuar. Todos têm o direito de aprender alguma coisa.
- Sendo assim,
tens que sair. – ouve-se finalmente na sala.
- O que é que
eu fiz? – perguntou, com ar ameaçador, à professora.
- Não sabes? –
perguntou-lhe ela, com ar cansado. – No final da aula falamos.
E o olhar dos
outros, cansados também, mas sem o dizerem. A falta de paz, a falta de sossego,
a falta de silêncio. O estrondo da porta, ao sair.
Ainda faltam uns minutos. A turma
tem o direito de aprender mais alguma coisa naquele dia.
Célia
Lima, Março de 2012