domingo, 9 de dezembro de 2012

Momentos


Era dia de festa,
E a roupa era nova, feita a propósito.

Dois rostos fixos na máquina,
com desejos vãos de eternizar o momento:
Retalho de festa, uma felicidade emprestada,
por vezes, roubada…
Respiram a alegria que pairava no ar
e embalam ânsias muito ternas… embalando…
E a festa lá fora: celebrar!

Retrato simples e puro de outrora!
Crianças, ainda, desejosas, curiosas…
Tão doces e serenas apenas!
Olhares meigos - tão ansiosos - bem me lembro!
Tudo à flor da pele!
E boiando à deriva, dois valentes marinheiros do improviso…

Quem diria, vendo a fotografia?

Surpreendidos por violentas tempestades,
Testemunhas de todas as marés,
Dois náufragos…
Mas sempre suportando:
SO-BRE-VI-VER!
   Tão puros, tão doces ainda!
Depois, num espaçar de carinhos oprimidos, estremecem…
E, pouco depois, ventos indesejados…
E a tempestade outra vez!
E mais uma, e mais outra vez…

Mas aquele era um dia de festa!
Com roupa nova, feita de propósito!

E as duas crianças - decididas, corajosas -
Treinando pequenos sorrisos, pequeninos!
   Eram tão pequenos ainda!
Lembranças de uma festa que não era sua,
E os ventos oprimidos, reprimidos, ansiosos…

Contudo, era dia de festa!
Roupa nova, feita a propósito.
Pose treinada, olhos fixos na máquina: Clic
Momentos!

Procurar a mota da Nancy


Natal de 2012
Procurar a mota da Nancy fez parte da agenda do fim de semana e foi tal a aventura que teve direito a uma pequena brincadeira.

A mota e a boneca

Uma menina queria uma boneca,
Queria uma boneca com uma mota!

“Uma boneca com uma mota?”
Pergunta a mãe, num tom espantado.

“Uma mota com uma boneca!”
Exclama o pai, todo admirado.

“Sim, sim, uma boneca e a sua mota!
Depois, eu ponho a boneca em cima da mota
E vamos as duas numa grande aventura!”

E lá foram elas!
Brrrummm…
Sempre em viagem, pela estrada fora,
Mil aventuras a qualquer a hora!
Brrruumm, brrruummm…

Depois, já cansadas, regressam a casa…
“Como correu a vossa viagem?”, pergunta a mãe, toda atenciosa.
“Já voltaste da vadiagem?”, interroga o pai, com voz curiosa.

“Visitei aldeias, vilas e cidades,
Conheci gente de todas as idades!
Vivi aventuras maravilhosas,
Eram tantas coisas: todas espantosas!”

Mais tarde, ao deitar, cansada e contente,
A menina deu beijinhos a toda a gente!

E foi nesse momento, sob o luar,
que ouviu a boneca e a mota, de novo, a abalar:
Brrruuuummmm!

Célia e Tita, 09/12/12

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Momentos de criatividade da Tita

Um Natal bem passado

Era uma vez uma família que festejava sempre o dia de Natal.
Era uma família muito pobre, mas que vivia muito feliz. Tinham chocolates, faziam a comida com os alimentos da horta e bebiam água.
Na noite de Natal, fizeram a árvore de Natal, enfeitaram a lareira e decoraram a casa toda. Era uma casa muito pequenina!
Nessa noite aconteceu algo muito estranho. A casa começou a tremer, a tremer cada vez mais…
- O que será? - perguntou a mãe.
- Passa-se alguma coisa…- disse o pai.
- Se calhar é o Pai Natal! – exclamou o menino.
- Olha que se calhar tens razão! – disse o pai, com um ar curioso.
Entretanto, o pai, a mãe e o filho começaram a ouvir um barulho que parecia vir da chaminé.
A mãe exclamou:
- Olha, o som vem da nossa chaminé!
O menino disse assim:
- Não é um foguetão de certeza! Tenho mesmo a certeza que é o Pai Natal! Hum, vamos cá ver…
O menino aproximou-se da chaminé para ir espreitar. Depois, disse com ar aflito:
- Papá, é mesmo o Pai Natal e está preso na chaminé. Será que consegues tirá-lo de lá? Por favor, diz que sim.
José, o tal menino, estava muito aflito! Ele pedira uma prenda ao Pai Natal e estava preocupado com ele. Tinha receio que ele não conseguisse sair dali. Queria muito ajudar o Pai Natal.
Então, o pai do José, com a ajuda do seu filho, pegou na escada e subiu ao telhado. Depois, o filho e o pai puxaram o Pai Natal e conseguiram tirá-lo da chaminé. Finalmente, o Pai Natal estava livre.
O Pai Natal disse:
- Obrigado por me salvarem! Vocês os três merecem uma prenda! Eu queria descer pela vossa chaminé mas estou muito gordo…e não fui capaz. Não teria conseguido sem a vossa ajuda. Agradeço imenso. Estou tão cansado! Posso dormir cá esta noite?
- Claro que sim. – exclamou o pai.
Na manhã seguinte, o menino reparou que o Pai Natal tinha acordado muito cedo. Chegou à sala e viu o Pai Natal, que já estava pronto para partir. Quando se despediu, convidou-os para irem dormir ao Polo Norte.
O pai do José respondeu:
- Claro que sim, com muito prazer!
Foi assim que o José e os seus pais, a Maria e o Miguel, foram para o Polo Norte. O José gostou tanto que ficou lá a viver para sempre com os seus pais.
FIM

05/12/12 Matilde Lima

Mini Biografia


Este texto acabou de me ser ditado pela minha filha Matilde de cinco anos e meio. Para além do sentimento de orgulho por ter confirmado mais uma vez que a minha filha é uma criança feliz, quero destacar que se tratou de um momento mágico, de grande cumplicidade. :)
Passo a transcrever:
"Eu, eu… gosto que me acarinhem.
Eu gosto de ir à escola. Gosto de brincar e de aprender.
Sou corajosa, tenho muitos amigos e brinco com eles.
Também gosto de estar com os meus pais.
Eu estou fazendo um texto. Continuando: estou no sofá.
Tenho duas manas que estão em Coimbra. De vez em quando, vamos visitá-las. Às vezes, até dormimos lá. Outras vezes, só vamos lá levá-las. Elas vivem em Coimbra e são muito amigas. A Mafalda está na Universidade e tem que estudar, e a Mariana, como é muito ligada à Mafalda, quis ir para uma escola de lá.  A minha mãe tem muitas saudades das minhas irmãs mais velhas, da Mafalda e da Mariana.
Eu ando em duas atividades: uma é a dança; outra é a piscina. Há colegas da minha escola que também vão à piscina.
Tenho uns pais que me adoram! Gosto de estar no quentinho com os meus pais, à noite, na sala.
O meu pai costuma ver sempre televisão. Gosta de ver futebol e todos os desportos. Também gosta de programas de bolos e de comida, porque ele é muito guloso.
Eu, quando acabo de jantar, venho para a sala.
Tenho uma casa que eu adoro!
Daqui a bocado, vou para a cama. É às nove e meia. Primeiro, bebo o leite. A seguir, lavo muito bem os dentes. No fim, gosto de ouvir uma história. Durmo com o meu peluche. É um dia cada pai a contar a história! Histórias giras: uma são pequenas, outras são grandes. Fico um bocadinho acordada. Adormeço passados uns minutos. O meu peluche, às vezes, cai da cama abaixo! Quando me caem dentes, ponho-os debaixo da almofada. E, depois, o pai ou a mãe, normalmente deve ser a mãe, deixam lá uma moeda.
Isto vai ser muito giro! Quero que todos saibam que eu vivo nesta casa e que passo por muitas aventuras na minha escola, como as visitas de estudo e assim… como ir ao jardim zoológico…
Tenho cinco anos! Estou quase a fazer seis.
Adoro os meus amigos. Brinco muito com eles! Saltitamos pelo parque, brincamos sem parar, andamos no escorrega e no balancé, muito contentes!
Tenho uma professora e uma auxiliar. A professora chama-se São, e a auxiliar é a Cristina. Fazemos jogos e muitos trabalhos. Quando alguém não sabe fazer um jogo, nós, as mais velhas (a Anastácia e eu), vamos ajudar. Gostamos de ajudar os colegas! Havia um jogo que nós ainda não tínhamos feito… e agora fizemo-lo! A minha sala tem uma casinha das bonecas, garagem, jogos de chão e muitos outros jogos divertidos. Tem muitos bonecos e tem muitos livros.
Adeus. Até um dia."

Estas foram as palavras da Tita.
Espero que sirvam de inspiração a muitos pais: dar tempo aos filhos é fundamental para percebermos como sermos pais pode ser a tarefa mais fantástica do mundo.
(Matilde Lima e Célia Lima)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Mandar ou não mandar TPC?


Julgo que todos conhecem a afamada sigla TPC, usada na escola desde há muitas décadas para designar os trabalhos enviados pelos professores para os alunos realizarem em casa. São os famosos Trabalhos Para Casa. Eternos aliados dos professores na árdua tarefa de garantir que os alunos estudam e exercitam os conteúdos necessários ao avanço das matérias? Inimigos irreconciliáveis da maioria dos jovens, que anseiam por chegar a casa, jogar a mala num canto e só lhe pegarem no dia seguinte? Responsabilidade indesejada que ensombra os finais de dia das famílias, forçando os pais a impor hábitos de trabalho e de estudo aos filhos, num eterno braço-de-ferro que acaba muitas vezes com o patriarca a ralhar, a mãe a lamentar e a criança a emburrar?
São muitas as opiniões e muitas as teorias a propósito do envio de TPC.
Não obstante a existência das mais diversas opiniões, quer por parte de professores, quer de alunos, quer de pais ou de especialistas diversos, e independentemente da pertinência dos diferentes argumentos apresentados - condicionados obviamente pelo diferente papel desempenhado pelos vários agentes educativos envolvidos - a verdade é que os trabalhos de casa sempre fizeram parte do dia-a-dia da maioria das famílias e são, no meu entender, uma modalidade de apoio naturalmente intrínseca ao processo de ensino-aprendizagem, consistindo numa clara mais-valia para que os alunos possam aprender mais e melhor.
Na escola atual, é fundamental reforçar o número de exercícios e de atividades, não só a serem trabalhados na aula, como também fora dela. Por isso, os TPC configuram uma modalidade de apoio fundamental para que os alunos estudem e exercitem as matérias (novas e antigas) lecionadas durante as aulas, de modo a poderem mais eficazmente evoluir nas suas aprendizagens, de modo a poderem reforçar e cimentar o conhecimento, a poderem garantir o desenvolvimento eficaz e duradouro das competências específicas, algo que não se consegue apenas no tempo de aula.
É evidente que os trabalhos de casa não devem nem podem nunca ser o princípio responsável pela aprendizagem - julgo que, nesse aspeto estamos todos de acordo - mas são, isso sim, uma estratégia auxiliar para o estudo. Por isso mesmo, o seu envio deve ser devidamente orientado pelo professor e, sempre que possível, supervisionado por um adulto, em casa ou na escola - nas salas de estudo ou nos espaços de apoio - onde, num espírito de entreajuda e de diálogo, os jovens estudantes podem desenvolver e cimentar hábitos de trabalho, de organização e de estudo, ao mesmo tempo que vão ficando mais autónomos.
Também é bem verdade que os alunos passam demasiado tempo na escola e muito pouco tempo em família, decorrendo daí alguma saturação e, ao mesmo tempo, o envolvimento muito reduzido dos pais na vida escolar dos filhos. Será por isso que a maioria dos alunos não faz as tarefas escolares com a seriedade e o empenho necessários? Não sei. Só sei que há demasiados TPC copiados, demasiados alunos que não os fazem, demasiados pais a autorizarem os filhos a não os fazerem, demasiados pais que não sabem ou não querem ajudar os filhos, demasiados alunos que não aproveitam os apoios e as salas de estudo, demasiados momentos em que, fruto do cansaço, da saturação ou da demissão, quem ganha o jogo do braço-de-ferro é a preguiça, a inércia, a falta de seriedade e de honestidade intelectual. É pena! Ainda assim, para mim, ex-aluna, professora e mãe, a resposta é óbvia: o verdadeiro conhecimento vem na sequência do trabalho e, no caso da escola, o conhecimento pode e deve ser reforçado e cimentado pelos Trabalhos Para Casa, os tais indesejados TPC!

Célia Lima, dezembro de 2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Se eu tivesse um diário...

          O momento em que escrevemos num diário é semelhante àquele em que nos miramos num espelho, mas feito de palavras. Escrever um diário dá-nos a oportunidade de “fixar” por escrito as nossas vivências mais importantes e mais ou menos costumeiras numa narrativa da qual, no dia-a-dia, nem sempre nos sentimos protagonistas. Ao mesmo tempo, permite-nos perceber que somos a essência e a identidade de um ser, que somos responsáveis por uma oportunidade de vida, por um EU, ao qual nem sempre damos a devida atenção. Desabafar o nosso rol de alegrias e de tristezas, exteriorizar os nossos pensamentos mais íntimos, as emoções e os sentimentos que nem sempre conseguimos partilhar com outra pessoa, permite-nos pesar sentimentos e emoções, arrumar gavetas no nosso coração e na nossa mente, ou então perceber que nem tudo pode estar sempre arrumado e organizado e que a beleza da vida também passa por isso.
Se tivesse um diário, escreveria que cheguei a casa há poucos minutos, com aquela sensação que sentimos às vezes no fim de uma semana de trabalho, uma mistura de cansaço com o doce prazer de estar às portas de mais um serão em família ou de mais um fim de semana. Faria uma rápida análise da minha semana especialmente cheia e cansativa: muitas horas de aula, recheadas com reuniões, atas, horas ao computador, muitos papéis (demasiados), mas uma semana boa, apesar de ter andado afónica durante a maior parte dos dias. Falaria da sensação de se gostar do que se faz, de se estar bem com a vida que se tem. Contaria que hoje, por exemplo, quando entrei numa turma, fui surpreendida com a pergunta inesperada de um aluno que raramente me dirige a palavra: “Então, professora, está melhor? Foi ao médico?”. Julgo que ele nunca tinha falado comigo, e logo hoje que eu não falava!
Não me estragou a semana ficar doente, muito menos ver fotografias de um tal Sócrates a passear-se por Paris, a gastar as sobras daquilo a que alguém já chamou “a festa socialista”, a sorrir e a acenar, imune e intocável. Não me perturbou a notícia ridícula de um ex-secretário de Estado que precisa da ajuda dos pais para sobreviver. Tudo isso me entristeceu, talvez até me tenha irritado momentaneamente, mas não mais do que isso.
A verdade é que foi uma semana boa, apesar da minha afonia e da verborreia dos políticos e do governo, apesar da novela à volta de um orçamento de Estado que vai entrar, mais uma vez, bem dentro da minha casa e que abalará inequivocamente a logística da minha gestão familiar.
Apesar de estar triste com muita coisa (sobretudo preocupada), apesar da minha consciência nem sempre me deixar descansar, aqui estou a cantarolar mentalmente o famoso refrão “É sexta-feira!”,  enquanto espero pelo resto da família para em conjunto iniciarmos um fim de semana simples e descontraído.
 Se tivesse um diário, hoje escreveria nele coisas simples, simples e tolas, e lembrar-me-ia, mais uma vez, que a melhor coisa da vida é vivê-la!

Célia Lima, novembro de 2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O que se passa nas escolas?


Nos últimos tempos, falar da escola não é falar de estabilidade. Como sabem, os meios de comunicação não param de nos bombardear com notícias sobre mudanças legislativas e orientações diversas que obrigam as escolas e quem lá trabalha a pôr em prática medidas que parecem ter sido pensadas com objetivos claramente economicistas, apesar de aparecerem sempre fundamentadas como sendo medidas educativas sérias e inovadoras.
Turmas maiores, menos disciplinas, menos professores são algumas das alterações a implementar agora, e os argumentos que se apresentam para fundamentar a implementação das mesmas são, ironicamente, quase os mesmos que se apresentavam quando se defendiam as turmas mais pequenas, um maior número de disciplinas ou a existência de um corpo docente maior e mais especializado: critérios de natureza organizativa e pedagógica, com a garantia da manutenção da qualidade de ensino. E tudo isto é dito, obviamente, com o ar mais sério do mundo.
Como sabem, Setembro é o mês em que o ano escolar se inicia. Para pais, professores e alunos é um mês marcado por uma rotina específica, ainda que diferente para cada um dos grupos: comprar livros e material escolar; fazer planificações e reuniões diversas; conhecer novos professores e colegas, são alguns dos muitos afazeres que calham a todos, ao mesmo tempo que nos despedimos de mais um Verão.
Ao longo dos últimos dezoito anos, passadas as férias, Setembro era o mês pelo qual costumava ansiar, com um entusiasmo e uma energia quase juvenis, acrescidos de uma vontade incondicional de cumprir os desígnios determinados superiormente. Agora, infelizmente para mim (e para muitos), as coisas mudaram.
Tenho a sorte de fazer aquilo de que gosto, é certo: ensinar é a minha vocação! Mas tirando esse enorme prazer de poder contribuir para o desenvolvimento integral daqueles jovens, parte do resto parece-me ter ficado demasiado instável, como areias movediças, e a verdade é que a falta de chão firme a mim causa-me, de vez em vez, uma espécie de inquietude.
Tudo isto para dizer que, nos últimos anos, me passei a sentir menos tranquila, em termos profissionais. Ser professor não é devidamente respeitado nem valorizado, quer pelo sistema, quer pela sociedade. Julgo até haver quem pense que os professores não fazem falta ou que são descartáveis (se assim não fosse não se atreviam a usurpar direitos adquiridos e até – cúmulo dos cúmulos - a dispensar professores que já trabalham há vinte ou mais anos!).
Setembro é o mês que me espera. Já tenho algumas saudades dos meus alunos, dos meus colegas e da escola, mas o meu coração diz-me coisas que, infelizmente, não me permitem serenar.

Célia Lima, Setembro de 2012

sábado, 25 de agosto de 2012

Receitas para lutar contra a falência emocional: rir é o melhor remédio

Nós, os Portugueses, somos um povo triste e, pelos vistos, doente! Cerca de dois milhões de portugueses precisam de medicação para dormir ou para se sentirem melhor. Temos ainda os alcoólicos e os toxicodependentes, entre outros. Ao todo, cerca de 30% dos Portugueses têm doenças do foro mental, relacionadas ou não com a forma negativa como encaram a vida e, consequentemente, com o stress. Tudo isto na sequência da nossa atitude negativa. Tudo isto porque, quando olhamos para o copo meio de água, a maioria de nós acha que ele está meio vazio, ao invés de achar que ele pode estar, claramente, meio cheio.
Já assim éramos e pior ficámos nos últimos tempos! Deixámo-nos arrebatar pela angústia e pelo sofrimento, que nos enrodilham numa espiral aferrolhada a um pessimismo crescente, inimigo da esperança, autêntico para-raios da falência emocional.
Racionalmente, sabemos que a nossa vida continua bastante boa a vários níveis: vivemos mais e melhor! A maioria de nós tem saúde, temos família, amigos, conforto… Mas tudo isto parece não chegar, sobretudo porque nos foi prometido muito mais, sobretudo porque, diariamente, somos empurrados para o consumo de informação excessiva e manipuladora de desejos e expectativas, somos manipulados no sentido de pretendermos sempre mais e de, muitas vezes, desejarmos aquilo que não temos.
Cada um de nós tem de conseguir libertar-se desta sofreguidão, deste desejo de querer sempre mais e desta frustração de, atualmente, ter cada vez menos. Caso não o façamos, corremos o risco de engrossar a fatia daqueles que são amarrados à tal espiral de sofrimento e pessimismo.
Contrariamente ao que alguns dizem, sabemos que não está nas nossas mãos reverter o estado do nosso país, resta-nos pois concentrar-nos naquilo que depende quase exclusivamente de nós: reverter o nosso estado emocional e, consequentemente, tentar criar uma espécie de resistência que nos proteja de toda esta catadupa de derrotismo e desânimo galopantes, que parecem corroer os alicerces da nossa sociedade.
Aquilo que vos sugiro não é uma receita milagrosa, não consiste numa descoberta de alquimia. É antes o fruto da investigação (ainda que pouco exaustiva), confirmada sobretudo pelo saber de experiência feito.
Todos os grandes filósofos dizem o mesmo: se queres ser feliz, sê ignorante! Desliga a televisão, durante os noticiários e não arrisques ler as gordas dos jornais ou ouvir as sínteses noticiosas na rádio. Limita-te a pensar nas pequenas coisas da vida – o sol que nasce todos os dias, a pureza das crianças, a beleza do mar, o sossego da noite - e sobretudo ri muito, ou pelo menos sorri e, de vez em quando, solta uma gargalhada!
Os estudos não enganam e os benefícios não param de ser estudados e relatados: rir é o melhor remédio. Rir previne doenças, aproxima-nos dos outros, estimula o cérebro, rejuvenesce e é libertador.
Lembro-me de que, quando era pequena, pedia ao meu irmão que me fizesse rir. Ele começava a fazer palhaçadas e eu, daí a pouco, ria sem parar, mesmo que não tivesse grande piada. Lembro-me muitas vezes disso. Apesar do meu ar sério, que ainda mantenho, de facto aquilo que eu queria era rir, rir sempre, ainda que muitas vezes me fosse difícil sorrir.
Quem me dera rir mais. Em todo o caso, recomendo, em grandes quantidades!

agosto de 2012-07-19
Célia Lima


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Carta dirigida a todas as mulheres e a todos os homens que adoram mulheres

Castanheiro, 01 de Julho de 2012
Ilustres leitores,
Agora que tenho a possibilidade de poder escrever tudo (ou quase tudo) o que me passa pela cabeça, decidi aproveitar para “puxar a brasa à minha sardinha” e defender uma tese na qual acredito a 100% e que, por isso, aqui defendo publicamente: Ser mulher, hoje, é um privilégio!
É isso mesmo. Como mulher, afirmo o óbvio: SER MULHER, HOJE, É UM ENORME PRIVILÉGIO.
Caso haja dúvidas, perguntem a todas as “velhotas” (e a algumas menos “velhotas” também).
Contar-vos-ão, entre “ais” e “uis”, como era ser mulher há vinte, trinta ou quarenta anos… Dir-vos-ão, entre lágrimas e assoadelas de nariz, como era ter que pedir uns tostões ao marido para poder comprar sardinha ou um metro de tecido para fazer um avental novo. Falar-vos-ão de submissão e de eterno servilismo; lembrarão os maus modos e os gestos bruscos, amassados, muito raramente, com algumas migalhas de afeto.
A verdade é que já vão longe os tempos em que as mulheres se sentiam na obrigação de obedecer ao marido e em que, mais ou menos submissas e discretas, fingiam ser desprovidas de inteligência, limitando-se a manifestar a sua opinião apenas nos momentos em que esta estava em concordância com a do ilustre consorte, ou então fingindo anuir, ainda que as indicações e orientações masculinas não fizessem qualquer sentido e deixassem muito a desejar à sensatez.
Longe vão os tempos em que a mulher tinha que pedir autorização ao marido para poder trabalhar fora de casa e em que, discretamente, tentava ser omnipresente em toda e qualquer circunstância doméstica ou familiar, calculando sempre, de modo quase premonitório, os desejos do seu cônjuge, desde os mais caprichosos - a urgência dos chinelos, à chegada, ou do copo de vinho - aos mais ou menos pertinentes para a época - a refeição feita a tempo e horas.
Atualmente, tudo mudou.
As mulheres não sentem qualquer obrigação de obedecer. Pior do que isso, acostumaram-se a dizer “não” (com elegância e delicadeza, claro!) e isso deixou os homens completamente rendidos ao charme irresistível das mulheres. As mulheres de agora, sobretudo as de meia-idade, têm vidas repletas de conquistas pessoais, e, regra geral, são dotadas de grande carisma, amadurecendo cheias de uma beleza que vem de dentro (o espelho acabou de mo confirmar!).
Agora, as mulheres ostentam a sua inteligência, sem se darem ao trabalho de simular falaciosas humildades ou falsas submissões relativamente a todo e qualquer som que escape intencionalmente da boca dos seus maridos. Mais do que isso, agora elas não precisam de marido!
Caros leitores, é por tudo isto que ser mulher hoje é muito melhor do que há vinte ou trinta anos! Qualquer mulher de meia-idade, como eu, sabe que assim é. E julgo que qualquer homem hoje gosta muito mais das mulheres assim: emancipadas, independentes, com opinião, corajosas, desafiadoras.
Ser mulher hoje é um privilégio, uma honra, um desafio e uma conquista constantes.
Não se esqueçam disso, mulheres. Respeitem isso, homens!

Assim me despeço.

Humildes cumprimentos,

Célia Lima

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Rir com as pequenas coisas

Estava um belo final de tarde e, como de costume, passou pela pré-escola, para buscar a pequena.
Mal entraram as duas no carro, desligou o rádio, para poderem conversar um bocadinho. As perguntas do costume: “Como é que correu a escola? O que é que fizeste?”. As respostas habituais: “Fiz trabalhos e brinquei. E tu?”
A viagem era curta, calma e preguiçosa, como costumam ser os regressos a casa, nos finais de tarde.
Naquele dia, como sempre, o ritual repetia-se: vigilante e curiosa, a pequena pesquisava para lá da janela todos os detalhes que pudessem tornar aquele regresso mais interessante. Cabrinhas, burros, vacas, ovelhas ou outros animais que estivessem no raio de alcance dos seus olhos (na beira dos caminhos, entre pomares ou junto aos quintais), tudo podia ser motivo de conversa, tudo podia despertar a sua atenção. Uma papoila vermelhinha nascida numa valeta, um gato sentado em cima de um muro, uma laranjeira carregadinha, um triciclo esquecido junto a um portão…
A viagem durava cerca de cinco minutos, mas nunca era exatamente igual, apesar de o trajeto ser sempre o mesmo.
Naquele dia, à curva da velha ordenha, algo surpreendeu a criança. Como de costume, este era um lugar onde passavam mais devagar para observar as vacas e os bezerros que pastavam descansados e pachorrentos, à direita, no prado verdejante de várias infâncias.
Mesmo no sítio mais fechado da curva, o ângulo de visão é privilegiado e aí, ao abrir-se a janela, quase se consegue fazer uma festinha num bezerro mais aventureiro que ouse aproximar-se da latada junto à estrada. Foi exatamente nesse momento que a menina exclamou, num inesperado grito de admiração:
- Mãe, olha, as vacas ainda têm o preço nas orelhas!
A mãe ouviu e, passado o espanto inicial, desatou a rir à gargalhada. Meio a sorrir, a menina olhava, atenta, aquela súbita risada. Entretanto, a mãe esclareceu:
- Não é o preço, filhota, é um brinco para identificar os animais, para saberem quando é que foram vacinados.
- A sério?! – comentou, com riso malandro.
Depois, riu-se também a bom rir, muito orgulhosa por ter dito uma coisa tola, mas “divertida”, uma coisa que fez rir a mãe.
Já à noite, repetiu, vaidosa, a sua própria história a todos quantos a quiseram ouvir: a história da menina que fazia rir e ria com pequenas coisas.

Célia Lima, Junho de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Há palavras feias, mas outras abusam!


Há palavras graves, palavras desengraçadas, antipáticas até, palavras que nos deixam, logo à partida, desconfiados, só de as ouvirmos. Austeridade é uma delas.
Julgo que ouvi esta palavra pela primeira vez numa aula, há vinte e tal anos, a propósito de uma personagem qualquer duma história. Lembro-me vagamente que era um velho pouco dado aos prazeres da vida, severo, cruel e ressequido como uma cigarra velha.
Mais tarde, ainda antes desta nossa malfadada crise, das poucas vezes em que ouvi este vocábulo, parecia-me sempre coisa má, coisa ruim e, invariavelmente, aparecia associado a gente demasiado circunspecta, dada a poucos sorrisos e a muitos dedos em riste.
Esta minha má vontade em relação à palavra era, vejo-o agora, uma espécie de sinal de alerta para um tempo em que ela saltaria das histórias lidas e ouvidas e aterraria, num voo em queda livre, mesmo em cima das nossas vidas: vivem-se tempos de austeridade!
O dicionário confirmou-me, ainda há pouco, o meu mau pressentimento e a análise mais rigorosa dos seus significados deixa-me, no mínimo, com insónias. Vejamos:
AUSTERIDADE (latim austeritas, -atis) s. f.:
1. Qualidade de austero;
2. Cuidado escrupuloso em não se deixar dominar pelo que agrada aos sentidos ou deleita a concupiscência;
3. Severidade, rigor.
Confirma-se a pior das minhas suspeitas: para além de ser uma palavra feia e séria, o seu significado é capaz de nos levar desta para pior. Será que eu entendi bem o que esperam de nós em tempos de austeridade?
1.      Pedem-nos, pois, que sejamos austeros, ou seja, rígidos, rigorosos, rijos, ríspidos, rudes, severos, duros e inflexíveis;
2.      Exigem-nos que tenhamos um cuidado extremo em não nos deixarmos dominar por desejos relativos aos sentidos, isto é, desejos que decorram diretamente do que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos ou provamos, ou que possam criar prazer;
3.      Relembram-nos, ainda, que devemos guiar-nos pela inflexibilidade e pela rigidez.
Que tal acrescentarem qualquer coisa como: sinónimo de deixar de comer, deixar de beber, deixar de sorrir, deixar de…TUDO!
Esta palavra devia ser abolida, eliminada dos livros. Espero que haja alguém que tenha ao menos a decência de a proibir nos livros com histórias infantis ou nos desenhos animados. No mínimo, incluam-na na lista dos produtos para maiores de dezoito e, sobretudo, não incentivem as crianças a ouvir noticiários ou a pesquisar o significado das palavras feias.
Confirmar o significado da palavra austeridade foi a pior ideia que tive hoje. Espero não voltar a fazer algo do género. Já bem basta sentir na pele as consequências da austeridade, não precisava nada de conhecer a profundidade e a abrangência do seu significado.
Ainda bem que a maioria de nós não perde tempo a ir ao dicionário!


Célia Lima, Rodilha, Maio de 2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dar tempo aos filhos


Nesta altura do ano, as escolas públicas interrompem as atividades letivas durante uns dias, e as famílias têm os filhos em casa durante aproximadamente duas semanas. Assim, por força das circunstâncias, a rotina familiar é temporariamente alterada.
Os miúdos não têm escola? E agora, o que fazer?
Há pais que aproveitam para tirar uns dias de férias de modo a poderem estar com os filhos; outros combinam com familiares ou vizinhos a quem entregam as crianças por uns dias; outros deixam-nos aos cuidados dos irmãos mais velhos. Estas e muitas outras soluções mais ou menos criativas (campos de férias, ocupação de tempos livres, miniférias em casa dos tios…) parecem perturbar de modo quase ofensivo a rotina de algumas famílias. Ouvem-se alguns pais lamentar o infortúnio de terem os filhos sem escola: “Não é justo”, “E agora, quem é que há-de tomar conta dos miúdos?”, “O Estado não tem responsabilidade nenhuma!”.
A mim, como mãe, surpreende-me que ter os filhos em casa por uns dias possa ser uma questão difícil de aceitar. Julgo até que há, nalguns casos, uma ligeira confusão entre os direitos e os deveres parentais e aquilo que é a verdadeira função da escola.
No meu entender, caso a escola não tivesse interrupções, os pais e os filhos estariam menos tempo juntos e isso não seria bom. De facto, de um modo aparentemente perturbador para alguns, estas paragens letivas acabam por contribuir para que pais, mãe, filhos, tios, tias, padrinhos e primos estejam mais tempo juntos, nem que seja para tomarem conta dos miúdos, que não têm escola. E Ainda bem que assim é!
Se as escolas estivessem abertas 12 meses por ano, isso significaria que todos nós estaríamos menos tempo com os filhos. Se as escolas abrissem ao sábado, quantos pais deixariam lá as crianças, se calhar até sem necessidade disso? Se as escolas tivessem dormitório, as crianças de mais longe dormiriam lá!
Parece-me pois lógico que organizemos antecipadamente as nossas vidas para conseguirmos estar com os filhos um pouquinho mais, nesta altura do ano.
 É que, pela Páscoa, já eles estão fartos da escola e anseiam ficar em casa uns dias, no mimo do lar, junto daqueles que lhes são mais queridos, junto da sua família.

terça-feira, 27 de março de 2012

Quando as palavras já não disserem nada

Falar é tão fácil. Desfechar os lábios e proferir sons com sentido, de preferência palavras simpáticas. Dizer o que querem ouvir, porque é cada vez mais difícil dizer outra coisa.

Dizer assim, apenas por dizer, é como ver as ondas que chegam à praia muito devagar, muito baixinhas, apenas um leve ondular ténue. As palavras melosas são ondulações leves num mar imenso e perigoso, mas que naquele momento está disfarçado por trás de sorrisos delicados. E as palavras ditas assim aparecem muito devagar, por vezes frouxas, disfarçando enganos, criando a ilusão de que nada de grave pode acontecer.

E todos nos habituámos a estas palavras: tudo tem que ser doce e calmo, simpático, inofensivo, disfarçado, maquilhado de simpatias, de cortesias, de delicadezas e de leves sorrisos encantadores. Nada de palavras fortes, enérgicas, genuínas, verídicas, saídas das profundezas das crenças. Nada disso! Seria demasiado cruel, com franqueza, mesmo que sinceras.

Assim, as palavras estão lá, à espera, inquietas como marés que não podem deixar de existir, que são essência do mar e de nós próprios. Mas não devem ser ditas, não vão elas criar ondas mais fortes, capazes de criar remoinhos inesperados. Que indelicado que seria!

Dizer aquilo em que realmente se acredita criaria essas vagas mais fortes, bandeiras que não podem estar sempre verdes, tardes que não podem ser sempre serenas.

Se calhar, já vos aconteceu. Quando falamos, nem sempre nos lembramos de escolher palavras pequeninas, com pouca força e, no fim, ficamos com a sensação de que estragámos toda a felicidade do momento, melindrámos cortesias delicadas, retirámos beleza àquele cenário tão lindo que nos foi apresentado.

Por isso, por não querermos ser ondas do mar, decidimos que o melhor será proferir palavras que não digam nada, palavras ocas, que depois de espremidas, pressionadas, coagidas ou questionadas, não digam mesmo nada.

Nesse dia, tudo estará bem, porque nada será dito, mesmo nada.

Quando as palavras já não disserem nada…

segunda-feira, 12 de março de 2012

Da porta para dentro


Entrou na sala de aula, atrasado, ainda a terminar uma conversa de corredor. Escolheu o caminho mais longo, deu um safanão na cadeira, olhou para o fundo da sala, jogou a mala para cima da mesa, foi até lá atrás, tirou o estojo ao colega, veio para a sua mesa. Já quase todos estavam sentados, menos ele. E outros que chegaram, entretanto.
A professora espera, tenta iniciar a aula, ditar o sumário, acalmar as tropas.
 - Senta-te, por favor! Estou à espera, para começar!- disse-lhe várias vezes, numa calma treinada, a calma de quem sabe que, de outra maneira, nada se consegue.
- Já vai, stôra! Tenha calma!- respondeu com a impaciência de sempre, com ar contrariado e insolente.
Os outros observam: uns à espera, para ver no que dá; outros numa agitação de quem nunca aprendeu a ser de outra forma.
Parece mentira! A aula ainda não começou. Este é, talvez, um dos momentos mais difíceis - tentar começar.
Finalmente sentou-se, mas não abriu a mala, não tirou o material… e a professora ditou o sumário com ar calmo, mas a ver tudo, a perceber que aquela ia ser uma aula dura, que naquele dia ele não vinha bem. Mais três ou quatro sem escrever e a professora a pôr notas no quadro, para ver se o ambiente acalmava e se conseguia pôr o grupo todo concentrado.
E o estojo a abrir-se, o caderno a ser atirado à bruta para cima da mesa. Levantou-se, cantou, sentou-se, escorregou pela cadeira, fingiu escrever… mas nada! Ainda nada.
E a professora atenta, a fazer-lhe sinais para se despachar, a dizer-lhe que não cantasse, que não assobiasse, que ouvisse, que a aula ia ser interessante, que sabia que ele até gostava de ali estar, não sabia é que gostava.
Daí a pouco, um momento de silêncio, e a aula a começar lentamente, de mansinho, pé ante pé, um fio condutor que se quer manter, o esforço da jornada que se adivinha difícil, a satisfação pela curiosidade fugaz que se lê nalguns olhares…
Depois, quando parece que tudo está a melhorar, a bolsa pelo ar, a conversa em voz alta, o assobio, a provocação inesperada, a vontade de ser mandado para a rua, o olhar de quem não tem nada a perder, de quem não tem nada que possa perder, porque, de repente, se lembrou que nada parece valer a pena.
“Que pena!”- pensa a professora.
É necessário avisar várias vezes, ser cuidadosa com as palavras, dar novas oportunidades de forma metódica e ponderada. Pelo meio, muitos intervalos, tentativas pouco frutíferas de acalmar o ambiente que alguns teimam em agitar, esforços esgotados para concentrar todas as atenções naquele fio condutor que deve presidir a todos os momentos da vida.
Mas é um dia difícil e a vontade de alguns parece ser não estar ali, não ouvir, não nada! Olha-se e vêem-se olhos cansados e alguns rostos singulares. Disfarces de euforia encobrem vidas que devem ser estranhas. Palavras bravias, atos violentos…Crianças disfarçada de gigantes. Assustador, por vezes.
Mas a aula tem que continuar. Todos têm o direito de aprender alguma coisa.
- Sendo assim, tens que sair. – ouve-se finalmente na sala.
- O que é que eu fiz? – perguntou, com ar ameaçador, à professora.
- Não sabes? – perguntou-lhe ela, com ar cansado. – No final da aula falamos.
E o olhar dos outros, cansados também, mas sem o dizerem. A falta de paz, a falta de sossego, a falta de silêncio. O estrondo da porta, ao sair.
Ainda faltam uns minutos. A turma tem o direito de aprender mais alguma coisa naquele dia.


Célia Lima, Março de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Parábola Inédita

Parábola Inédita

      Naquele tempo, era raro ir ao médico. Só quando a maleita parecia mesmo grave, só quando parecesse que a viagem valeria mesmo a pena, que não se tratava apenas de uma febrezita de uns dias ou de um abcesso que não se curasse com os emplastros de batata ou aguardente bochechada várias vezes ao dia.
      E parecia sério, daquela vez. Era bom que fosse mesmo!
      O rapazito já não comia há dias, deitava fora um aguadilho sem fim e parecia amarelar de dia para dia. Nem as infusas de chá de poejo tinham aliviado o sofrimento do garoto. Era preciso ir ao Sr. Doutor, pois então.
      Roupa domingueira, um naco de broa no saco, as mãos esfregadas à pressa com sabão azul, os pés contrariados no aperto inusitado dos velhos chanatos, e lá foi, apressado pelo pai, impacientes os dois.
      Chegados à vila, entraram na sala de espera e, pouco depois, chegou a hora de entrar.
      As perguntas do costume e o pai a lamentar que se calhar não tinha sido preciso vir, que vai-se a ver era ronha… e o garoto a fungar, aflito, a antecipar já um ralhete, caso a doença não valesse a viagem, caso a maleita não justificasse o tempo perdido e a despesa.
      No fim do exame, encontrada a febre (das bravas!), uma tal de “aftosa”, que podia tê-lo levado desta para melhor, o Dr. despediu-se com uma festa rápida sobre a boina de bombazine azul do garoto e perguntou, com ar simpático:
      - Gostas de chocolate, ó menino?
      O garotito ouviu e, com olhar incrédulo, olhou de soslaio para a pequena tablete embrulhada em papel de prata que o médico estendia na sua direção.
      Meio aflito, dominado por um apetite engasgado, saíram-lhe da boca palavras estranhas, alheias à sua própria vontade, vindas do orgulho estúpido que se esconde em cada um de nós:
      - Não, não gosto! – disse o pequeno, simulando uma certeza que não tinha.
      O médico espantou-se e, num meio sorriso, perguntou:
      - Já provaste?
      - Não, senhor doutor.- respondeu, com ar envergonhado.

      Esta é uma história verídica, ouvida há muitos anos da boca de quem a viveu, ouvida da boca da tal criancinha que não gostava de chocolate, porque nunca tinha provado.
      Tenho-me lembrado muitas vezes desta história, uma de entre muitas que ouvi contar e com a qual aprendi mais uma boa lição
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Leituras à lareira

          Em casa do meu avô da Moita do Boi, liam-se sobretudo três coisas: o livro de leitura da terceira classe, o “Borda D'Água” e o “Amigo do Povo”. E esta era a sua biblioteca, da qual falava como se de um tesouro se tratasse!

O velho livro da primária, guardado durante mais de sessenta anos, estava trancado a sete chaves na cantareira da sala e só me lembro de lhe poder tocar - com autorização especial do meu avô e debaixo dos seus olhos ciosos - num ou noutro dia em que ele estivesse especialmente bem-disposto ou em que lembrasse com orgulho inchado o seu diploma da terceira classe.

O “Borda D’Água” era a enciclopédia da casa. Apresentava um reportório vastíssimo de informações diversas, desde as fases da lua aos eclipses e marés, com dicas sobre astrologia, agricultura, jardinagem…Este almanaque era muito melhor do que o boletim meteorológico da TVI, com a vantagem de me ter iniciado no contacto com o mundo da publicidade através do famoso anúncio ao pulverizador LENA, a máquina de sulfatar que alegrava quem a comprasse e entristecia quem a não tivesse. Vi o meu avô folhear mil vezes o famoso almanaque já amarelado do tempo e do fumo da lareira. Até a minha avó olhava para aquelas folhas, com ar atento e inquiridor, apesar de não saber ler uma única linha!

 Da peculiar biblioteca, o que recordo mais vivamente são os momentos dedicados ao último elemento da lista, o ilustre “Amigo do Povo”, afamado jornal semanal que o meu avô tirava com ar solene do velho armário embutido sobre a lareira e cuja leitura fazia questão de partilhar com os netos. À medida que íamos aprendendo a ler, pedia-nos para lermos - à vez e em voz alta! - as notícias e os temas diversos ou então a velha rubrica “À Sombra do Castanheiro”. E assim nos entretínhamos uns aos outros, enquanto a minha avó abria um saco de biscoitos ou tirava da seira os bolitos comprados à vendedeira, de manhã, no mercado. Depois, acabávamos sempre na secção recreativa, de volta das adivinhas e a resolver charadas combinadas.

Passaram mais de trinta anos! E ainda me vejo, sob o olhar atento e magistral do meu avô, a ler as notícias da terra, no banquito da lareira, nos fins de tarde de domingo.

Há pouco, ao calor de uma outra lareira, dei por mim a ler o “Rodilha”, enquanto recordava velhas memórias, e confirmei mais uma vez que são as coisas simples da vida que constituem a nossa verdadeira essência.


Célia Lima