sábado, 11 de fevereiro de 2012

Parábola Inédita

Parábola Inédita

      Naquele tempo, era raro ir ao médico. Só quando a maleita parecia mesmo grave, só quando parecesse que a viagem valeria mesmo a pena, que não se tratava apenas de uma febrezita de uns dias ou de um abcesso que não se curasse com os emplastros de batata ou aguardente bochechada várias vezes ao dia.
      E parecia sério, daquela vez. Era bom que fosse mesmo!
      O rapazito já não comia há dias, deitava fora um aguadilho sem fim e parecia amarelar de dia para dia. Nem as infusas de chá de poejo tinham aliviado o sofrimento do garoto. Era preciso ir ao Sr. Doutor, pois então.
      Roupa domingueira, um naco de broa no saco, as mãos esfregadas à pressa com sabão azul, os pés contrariados no aperto inusitado dos velhos chanatos, e lá foi, apressado pelo pai, impacientes os dois.
      Chegados à vila, entraram na sala de espera e, pouco depois, chegou a hora de entrar.
      As perguntas do costume e o pai a lamentar que se calhar não tinha sido preciso vir, que vai-se a ver era ronha… e o garoto a fungar, aflito, a antecipar já um ralhete, caso a doença não valesse a viagem, caso a maleita não justificasse o tempo perdido e a despesa.
      No fim do exame, encontrada a febre (das bravas!), uma tal de “aftosa”, que podia tê-lo levado desta para melhor, o Dr. despediu-se com uma festa rápida sobre a boina de bombazine azul do garoto e perguntou, com ar simpático:
      - Gostas de chocolate, ó menino?
      O garotito ouviu e, com olhar incrédulo, olhou de soslaio para a pequena tablete embrulhada em papel de prata que o médico estendia na sua direção.
      Meio aflito, dominado por um apetite engasgado, saíram-lhe da boca palavras estranhas, alheias à sua própria vontade, vindas do orgulho estúpido que se esconde em cada um de nós:
      - Não, não gosto! – disse o pequeno, simulando uma certeza que não tinha.
      O médico espantou-se e, num meio sorriso, perguntou:
      - Já provaste?
      - Não, senhor doutor.- respondeu, com ar envergonhado.

      Esta é uma história verídica, ouvida há muitos anos da boca de quem a viveu, ouvida da boca da tal criancinha que não gostava de chocolate, porque nunca tinha provado.
      Tenho-me lembrado muitas vezes desta história, uma de entre muitas que ouvi contar e com a qual aprendi mais uma boa lição
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