Haviam almoçado cedo – em casa, claro – e não saíram sem
antes ter enchido o porta-luvas do carro com garrafas de água e com os pacotes
de biscoitos e de bolachas do costume.
Cumprira-se, pois, o prometido: um passeio em família! Não
muito longe, evidentemente. Uma coisa simples e barata, de preferência a fugir
às portagens e aos pórticos das modernas, múltiplas mas dispendiosas autoestradas
da nação.
Com o almoço “no papo” e o lanche “no saco”, gasóleo no
automóvel, lá foram e de lá voltaram, sempre de olho vivo, não fosse alguma
brigada estar à espreita, escondida por trás de alguma sebe. Todos alerta, atentos
a qualquer vulto camuflado sobretudo nas descidas, ou à saída de algum
lugarejo. O risco era pequeno, pois o pai conduzia devagar, mas ultimamente
eles andavam cegos, com os radares “afinadíssimos”, diziam alguns; escondidos à
socapa, garantiam outros; com ordem para multar ao mínimo deslize, comentavam
os próprios em conversas de café.
- A malta cai toda que nem tordos, portanto, nunca
arriscando.- lembrou o chefe de família.
E, pelo sim, pelo não,
a mãe e as crianças, com olhar de lince, confirmavam velocidades e desfaziam
dúvidas sobre eventuais carros à civil estrategicamente estacionados à beira das
estradas, atrás de lombas, debaixo das passagens superiores, a meio das
rotundas… Valia tudo, mesmo tudo!
- Olha ali, parece um radar!
- Cuidado, pai, vais a
54 km/h e está um carro atrás daquele arbusto.
Falso alarme! Ainda bem.
Tinha sido uma tarde divertida, mas bastante cansativa:
evitar as compras (shoppings, cafés, pastelarias, cinemas, roupas novas, sapatos,
livros, “olha aquele jogo novo para a PS!”, “As minhas sapatilhas estão a
começar a romper-se.”, “Posso comer um gelado?”…). Não fazer compras, evitar o
cafezinho e o geladinho, controlar o consumo do automóvel – “já gastámos um
quarto de depósito!”, “mais vinte e cinco euros para a corda do sino!”.
Que canseira!
Olhos fixos na estrada, pensamentos ocultos, palavras que
ficam por dizer, lamentos calados.
Mas é tudo tão bonito, tão moderno, tão “à frente”!
E autoestradas vazias, estádios às moscas, shoppings e restaurantes de luxo. Belas pousadas,
fantásticos Museus. “Uma oferta cultural invejável!”, dizem-nos na televisão, e
nós acreditamos. “Um destino turístico a repetir!”, confirmam os turistas com
belos sorrisos, num inglês que nos esforçamos por decifrar!
- Se eu vivesse num
país desenvolvido, também vinha passar férias a Portugal, pai. E havia de
conhecer bem o nosso país. – dissera uma vez um dos miúdos.
De repente, o silêncio é interrompido:
- Quando chegar a casa, vou fazer a maior torre de Legos do
mundo, e não é preciso gastar dinheiro! - Disse com ar convincente a mais
pequena - Que sorte que eu tenho por ter herdado os Legos dos manos. – Acrescentou.
Ninguém comentou. Ninguém disse nada. Os olhos cruzaram-se,
mas apenas isso.
E a crise a teimar, nas notícias, à noite.
E a maior torre de Legos do mundo, em cima da mesinha da
sala.
- Que bonito, filha!
Os Legos herdados dos irmãos. As dívidas herdadas, feitas não
se sabe por quem.
Crianças sem culpa, famílias confusas. Dão ainda alguns passeios,
às vezes.
Que lindo que é o nosso país!
Célia Lima, outubro de 2013
Escolhi este texto porque me identifico com ele, costumo fazer muitos passeios em família.Gosto muito de viajar, por sítios que não conheço, por estradas secundárias para ver todos os pormenores escondidos do nosso país e no estrangeiro.
ResponderEliminarParabéns pelo trabalho realizado, e continue sempre a escrever
Adorei o texto também porque adoro passear com a minha família e porque me identifico com ele...
ResponderEliminarContinue com um bom trabalho
Do Isaac n°10 7°D