Há uns tempos, quando me preparava para coser um botão que teimava em querer soltar-se, reparei que já não conseguia enfiar a linha na agulha, assim, às primeiras. Achei graça à situação e julgo que a comentei, lembrando antigas memórias em que observava as minhas avós às lambidelas à ponta da linha, enquanto tentavam, em vão, acertar na boca escancarada da velha agulha ferrugenta.
- Estou com falta de vista? Não! Deve ser só cansaço. - pensei - Ainda sou tão nova!
Uns dias depois, o diagnóstico foi claro, apesar de disfarçado por trás dos eufemismos e da simpatia própria da minha oftalmologista:
- Sabe, é normal, a partir de determinada idade, começa a ter-se mais dificuldades de visão.- disse ela.
- A partir de determinada idade? Deve ser engano, doutora! – respondi-lhe, com ar divertido.
Depois, fiquei a pensar naquilo. Afinal, há uma idade em que se começa a perder capacidades? Uma idade própria para estrear dores, fraquezas, debilidades menores? Uma idade em que o nosso corpo começa a dar sinais de alerta? Era o que mais me faltava!
Remoí uns dias, indecisa entre a recusa firme ou a aceitação inevitável daquela evidência: já não era uma jovem?!
Ainda que contrariada, fui negociando comigo mesma a despedida da juventude e a entrada definitiva na “meia-idade” (que expressão feia!), ao mesmo tempo que, num esforço tão empenhado quanto consciente, procurava argumentos que provassem ser uma mais-valia esta nova fase da minha vida. Concluí, porém, o inevitável e óbvio. Há que “chamar as coisas pelos nomes” e, de facto, comparada com a juventude, esta “nova idade” não era nenhuma promoção na carreira, não era nenhum prémio de produtividade, nem nenhuma medalha de mérito! Agora era sempre a descer!!!
E eu a olhar para mim mesma, como se me visse pela primeira vez, pasmada com a consciência da descoberta que tinha acabado de fazer. Eu, por fora, a deixar de ser “eu”, a olhar para a minha vida como se a perceção da minha “meia-idade” me reduzisse naquilo que sou. E eu, que quero ser “eu”, a ver-me a mim mesma fora do écran, por momentos, sem conseguir já regressar ao local e à hora exata da ação, num filme em que, a dada altura, houve um breve intervalo para a consciência.
Os olhos fogem-me da linha e da agulha e as coisas e a vida parecem-me mais nítidas do que nunca!
Há séculos, Horácio escreveu que devíamos aproveitar o dia. “Carpe diem” era a frase em Latim: Aproveita o momento! E eu perco tempo a pensar em coisas que não posso mudar. E o tempo a fugir-me e esta consciência que não me larga por um segundo…
Consumida com tais pensamentos, desabafei as minhas preocupações, numa longa conversa à meia tarde. Como resposta, chamaram-me tola e eu, mais aliviada, sorri com ar embaraçado, experimentando uma vergonha antiga e ingénua, quase infantil.
Célia Lima, Dezembro de 2011
Cara professora, não sabia que havia idade para se perder qualidades.
ResponderEliminarTambém já reparei que a minha avó e a minha mãe lambem a ponta da linha.
Porque não continua a escrever?
Da sua aluna Bruna Domingues no. 3 7B