domingo, 29 de junho de 2025

Da escola para a vida: um caso de proporcionalidade direta (ou não)

 Eu sei que parece estranho para muita gente, mas há crianças e adolescentes que têm objetivos académicos, sem qualquer ligação a futuros objetivos profissionais. Há quem queira apenas ser um excelente aluno porque adora desafiar-se cognitivamente, porque adora aprender, porque adora evoluir intelectualmente. Só isso. Sem qualquer plano de grandeza para querer liderar ou por se considerar melhor ou superior aos outros.

Para se ser um aluno de excelência é preciso ser diferente da maioria dos alunos, isso é certo. Precisa de se ter, entre outras características, uma grande capacidade de trabalho e de organização,  muita paciência, resiliência e persistência. E claro capacidades cognitivas acima da média. E essas características serão, em princípio, levadas  mais tarde para o mundo do trabalho (ou não). 

É que, para além disso, há muitas variáveis.  Uma delas é a ambição, que pode ser  de vários tipos e pode surgir ou não em diversos momentos ou fases da vida.

 E nem todos desejam a mesma coisa da vida, na mesma altura.

 Já vi muitos alunos de excelência cuja ambição é, mais tarde, uma vida simples, em que tentam equilibrar a vida familiar e a vida profissional, por exemplo; já vi alunos medianos, com enormes capacidades - cognitivas ou não - subaproveitadas, e que mais tarde fazem de tudo para ascender numa empresa ou numa organização,  sendo ou não líderes natos, tendo ou não grandes hábitos e métodos de trabalho; já vi alunos de excelência desistirem de tudo; já vi alunos normais e até medíocres com um enorme potencial que só acionam ou só aproveitam mais tarde, quando atingem um determinado nível de maturidade.

Há de tudo.

Acho, contudo, que não se pode cair no erro de considerar que a excelência académica deve ser desvalorizada.

 Para mim,  é claro que a excelência académica tem de ser valorizada e muito! Alunos excelentes são exemplos, são forças motrizes dentro de uma sala de aula, são modelos de inspiração, que desafiam diariamente os professores e motivam os  colegas. São eles que melhor questionam, refletem, argumentam, com fundamento, com conhecimento,  com vontade... são eles que cumprem mais, que trabalham mais, que se esforçam mais. Isso tem que ser dito. E também deve ser dito que há muitos alunos medianos que só não são melhores porque não querem, porque dá muito trabalho. E está tudo bem, têm direito  a isso!

Em todo o caso, como todos sabemos, os bons resultados escolares interessam,  sobretudo para aceder a alguns cursos...

Mas depois, alguns anos mais tarde, já "com o canudo na mão" vem a vida a sério,  a procura de um emprego, a entrada no mercado laboral...

E claro que a excelência académica não dita inequivocamente o que vai acontecer nessa fase, quando se entra no mundo do trabalho. 

Mais tarde, no mundo laboral, serão acionados outros tipos de características. Também há resiliência,  persistência, motivação, mas são de outro tipo... e claro, a AMBIÇÃO,  que para muitos (não todos) passa a ser financeira!

 E todas essas novas vertentes das mesmas características, dos mesmos valores, podem dececionar alguns e estimular outros! E de repente tudo pode mudar: e o mediano pode ser excelente e o excelente mediano. Ou não! 

 Mas ainda bem que assim é! Isso significa que cada dia é uma nova oportunidade para cada um, independentemente das suas capacidades cognitivas, do modo como encarou a escola ou da dedicação e investimento  dispendidos durante a sua formação académica.

É muito interessante ver como tudo isso acontece e como os nossos alunos medianos ou medíocres mudam, e muitas vezes para melhor, quando entram no mundo do trabalho. 

Quanto aos alunos excelentes, muitas vezes deixam de querer "destacar-se" no mundo laboral. Não ambicionam chefiar, liderar, coordenar... Não querem "ir a jogo", não se reveem naquele tipo de papel, não têm o perfil necessário...  E então?  Qual é o problema?

Independentemente disso, nada lhes tira o mérito que tiveram ou têm e,  com certeza, os resultados escolares foram importantes para se realizarem pessoalmente, para terem mais conhecimento,  para serem mais cultos... para abrirem algumas portas, para acederem a alguns cursos ou profissões.

O resto vem ou não depois.

 Se vier, se quiserem, se lhes apetecer,  se forem capazes...

No fundo, no fundo, cada um de nós tem fases, como a lua. 

E, cá por baixo, na Terra, da passagem da escola para a vida, nem sempre é um caso de proporcionalidade direta. 

Mas é um gosto andar por cá e ver todas estas variáveis! 


 




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