quinta-feira, 5 de junho de 2025

Dedicada, mas nem sempre delicada: uma questão de disciplina e acerca da indisciplina

 Dedicada, mas nem sempre delicada. (Private joke, apesar de o assunto ser bem sério)


Começo por dizer que ser professora é das missões mais difíceis que há.  Ninguém tem noção da verdadeira responsabilidade que é ter que tomar decisões a cada segundo: o que fazer? como o fazer? 

E, sobretudo nos últimos anos, como criar um espaço de aula seguro, em que cada um dos alunos sinta que ali nenhum colega lhe vai fazer mal ou mandar bocas ou chamar nomes ou roubar material ou rir-se quando participar (seja porque acertou, ou porque falhou, ou porque pareceu interessado, o que é quase crime para alguns dos alunos que se "estão a lixar para tudo"...). Abre o caderno, escreve, faz como os teus colegas, sossega, larga o TMV, pára...  O que é que tens hoje? Precisas de sair um bocadinho?

E entretanto já houve 30 pausas na aula...que canseira!

 Ou deixo passar e "que se lixe"?


É urgente fazer alguma coisa.

Podemos não conseguir encaminhar ou recuperar dois ou três por turma, mas temos obrigação de mostrar aos restantes alunos que a escola é um lugar de crescimento, desenvolvimento, de valorização do saber e de alegria (diferente de euforia, já agora). 

Precisamos de os fazer sentir seguros dentro da nossa sala: o que fazemos é sério, honesto,  bem Intencionado,  do princípio ao fim! 

Temos que fazer sentir os nossos alunos confiantes! 

Temos que os fazer sentir que não são reféns de um ambiente dominado pelo bullying (de todos os tipos e mais algum), do qual não podem falar, com medo de vingança ("depois é pior, professora"). 


É triste ver muito alunos pelos cantos, silenciosos,  amorfos, porque uma minoria "que não quer saber de nada" controla e domina o ambiente (até dentro da sala, se lhes for permitido).

Como é que é possível acharem que podem estar sempre a interromper, desafiar,  provocar?


É  isso  que me tem preocupado mais ao longo dos últimos anos. Mas é sobretudo  o impacto que a indisciplina e que um certo tipo de  impunidade  'legislada' tem em muitos dos outros alunos.

 Esse impacto é, na realidade, muito maior do que se possa imaginar: por causa de um, dois ou três,  outros há que deixaram de olhar para a escola com respeito, alegria e dedicação.  Parecem sonâmbulos e acham mesmo que estão ali apenas a passar tempo, até chegarem a doutores ou engenheiros (de preferência,  claro está). E alguns chegarão! 


Mas voltando à vaca fria,

um número crescente de alunos está a começar a olhar para a escola como um "passatempo" (no sentido literal): fingem que ouvem, fingem que estão na sala, fingem que estão a resolver os exercícios.  Passamos pelas carteiras e nem a letra se consegue ler (se é que escreveram alguma coisa, nalguns casos). E,  claro, não estudam. 

E eu estou convencida de que está tudo relacionado:

 Se "àqueles tais" acontece pouco ou nada... e continuam, com ar cada vez mais seguro e desafiante...  

Para quê fazer diferente,  se vai dar ao mesmo, pensam muitos?

 Para quê estudar, se até o fulano e o sicrano que fizeram isto, aquilo e mais mil e quinhentas coisas todos os dias, passam sempre de ano? Dizem-nos alguns alunos na cara.

 

É claro que ainda há alunos que olham para a escola como um caminho a percorrer com empenho e dedicação, mas fazem-no de forma cada vez mais discreta, de preferência sem comentarem as notas que tiveram ou os objetivos a que se propõem. Não convém porem-se a jeito de ouvirem umas bocas ou de serem gozados pelos ditos que tais!


Poderíamos falar da omissão ou demissão dos pais (também sou mãe de três); poderíamos falar do facto de haver conteúdos que "não interessam nem ao menino Jesus"; poderíamos falar dos professores, esses marotos  com uma vida de luxo, uns que "são tão bonzinhos", outros que "são do piorio"! Poderíamos falar dos TMV, uma das maiores pandemias no que às relações interpessoais diz respeito.


Claro que há muitas variáveis,  como na matemática. Mas, tal como na matemática, também há a proporcionalidade direta.


Não metam mão nisto, que vão ver onde vamos parar!


Mas como assim é mais barato, talvez os nossos políticos decidam esquecer a matemática. Pelo menos por enquanto. Entretanto, não se esqueçam que o "responsável da obra" somos nós, não é só o engenheiro que fez os projetos e vem mandar uns "bitaites" de vez em quando. 

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