quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Latim e o Grego: dois grandes amores

Hoje, ao caminhar pelos velhos corredores da Faculdade de Letras, lembrei-me várias vezes de cenas antigas, escondidas no baú das memórias. Foi há vinte e tal anos, mas quem passou por lá, como eu, deve lembrar-se assim das coisas, como se tivesse sido ainda há uns meses, uns anitos talvez, na pior das hipóteses.
Era uma jovem estudante de Clássicos e lembro-me de sentir, já na altura,  que estudar Latim e Grego era um privilégio, um luxo que me era permitido a mim e a uns poucos como eu. Lembro-me com saudade de algumas aulas, de salas, dias, horas, momentos, cheiros, livros em velhas estantes, sebentas, apontamentos repletos de cumplicidades com a colega do lado, dicionários sublinhados a várias cores, traduções, retroversões, declinações e muitas, muitas outras confusões... Gostava daquilo! Estava a aprender, fazia-o com gosto, com vocação, e sentia-me afortunada por isso.
Hoje, acordei em mim mais uma vez a velha paixão que sempre senti pelo meu curso! Que sorte que tive: ia à maioria das aulas e gostava de ouvir aqueles professores, de decifrar aqueles textos, de estudar aquelas histórias. E que belos contadores de histórias tive o prazer de ouvir! Professores apaixonados pelo que faziam, que davam uma aula como quem contava uma história. Professores cuja ausência era sentida quando davam um furo. Espantoso!
Hoje - já o perceberam - matei saudades dos Clássicos novamente, em Coimbra, nos velhos corredores e salas de outros tempos. Revisitei outros locais, ouvi velhas histórias, li em Latim, cantei , ri-me muito... e deixei-me levar para outros tempos, muito antigos, como se de um passe de magia se tratasse.
Tudo porque um grupo de apaixonados pelos Clássicos decidiu organizar os "Ludi Conimbrigenses", tudo porque há quem acredite que aquilo que somos depende daquilo que fomos. Tudo porque há quem se recuse a acreditar que o Latim e o Grego morreram. Tudo porque há quem seja mesmo apaixonado pelo que faz.
 Isso é mesmo o mais importante (digo-o aqui também!) e disse-o já a alguns dos meus alunos. O mais importante é estarmos apaixonados pelo que fazemos, e hoje vimos dezenas de pessoas apaixonadas pela Área que escolheram, fosse ela o Ensino, o estudo dos Clássicos, o Teatro, a História, a Visita Guiada a um Museu...
E porque só temos uma vida, há que vivê-la assim, com paixão, foi-nos também lembrado, numa aula improvisada de Latim.
Quem me conhece sabe  que tenho muitas saudades de ensinar Latim e Grego, as minhas duas primeiras grandes paixões.
Ontem li um texto em que se falava da sua morte; hoje vi estas duas línguas e culturas vivas, bem vivas, e cheias de alegria. Ontem senti-me triste, por momentos; hoje tenho esperança de que, com o tempo, não se apaguem as memórias do tempo. Afinal, tal não seria possível.

4 comentários:

  1. Acho inspiradora a maneira como exprimiu sentimentos pessoais, de uma forma tão interessante, nesta reminiscência.Ainda bem que há pessoas que têm a possibilidade de trabalhar naquilo que gostam.

    Do seu aluno:
    Francisco Antunes Nº 12 7ºA

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  2. Eu gostei muito deste texto e gosto muito de reminiscências.Também gostava realmente de trabalhar naquilo que gosto.
    Do seu aluno:
    Vasco da Costa Mendes - 7.ºC - n.º19

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  3. Gostei do texto pois exprime sentimentos pessoais e consegue transmitir o amor que sente no que faz. Um dia espero que consiga escrever tão bem.
    Da sua aluna:
    Patrícia Gomes nº 16, 7ºC

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  4. Gostei muito do seu texto pois consegue exprimir os seus sentimentos pessoais nesta reminiscência. Eu também adoraria trabalhar naquilo que gosto de um dia será o meu emprego.
    Do seu aluno:
    Gonçalo Laranjo Nº11 7ºC

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